Depois de cerca de 14 meses convivendo com a covid-19, o “voltar à normalidade” ainda parece algo muito distante para a população de Franca - como de resto, se repete em todo Brasil. Embora a cidade tenha sofrido uma restrição rígida apenas no início da pandemia, em março de 2020, em momento algum as pessoas puderam se sentir seguras e confortáveis em seguir suas vidas. Mesmo com a reabertura de vários setores da economia, a sensação de medo e insegurança são permanentes. A retomada a uma vida quase normal, no entanto, já começa a ser sentida para uma pequena parcela dos francanos: os que vivem no exterior.
A experiência de viver na pandemia foi completamente diferente para cada um, de acordo com seu país. Enquanto o Brasil registrou cerca de 420 mil mortes e mais de 15 milhões de casos da covid, a Austrália foi uma das nações que não sentiram tão brutamente os prejuízos do vírus, com menos de mil mortes registradas - no total. O número acumulado de óbitos por covid no país da oceania é metade dos mortos por coronavírus no Brasil num único dia.
Thiago Cruz, de 25 anos, é natural de Franca, mas vive há um ano e quatro meses na terra dos cangurus. Em Gold Coast ele trabalha como chef de cozinha e leva a vida praticamente sem se incomodar com o coronavírus. Diferente da terra do calçado, ou do que pelo menos deveria ser, os australianos já podem festejar sem preocupação.
“A Austrália, no geral, se deu muito bem com a pandemia desde o início. No total, a gente teve menos de 30 mil casos de coronavírus e menos de mil óbitos. As restrições variaram muito de estado para estado e as barreiras fecharam o acesso de um estado para o outro”, disse Thiago, que vive no estado de Queensland, um dos menos afetados.
“No início tivemos de dois a três meses de um lockdown mais restrito, onde fecharam todos os estabelecimentos. Só os restaurantes ficaram abertos, mas com entrega via take-away e delivery. Hoje a gente não precisa mais fazer o uso de máscaras. O governo só pede distanciamento social”, falou. No país, todos os estabelecimentos instalaram um QR code, onde a população faz o check-in. “Assim, eles têm o acesso de todos os lugares que a gente passou e caso alguma pessoa tenha contraído o vírus, eles sabem por onde essas pessoas passaram”.
Além da Austrália, o mais influente país do mundo também já caminha para a retomada integral pós-covid: os Estados Unidos. Esse, no entanto, foi extremamente prejudicado ao longo da pandemia, com mais de 580 mil mortes pela doença – o maior número já registrado em todo o mundo. A vacinação em massa é a grande responsável por essa volta à normalidade, mas os americanos enfrentaram duras restrições até chegar a este ponto.
Lauany Soares tem 22 anos e completou seu segundo ano nos Estados Unidos na última quinta-feira, 5. A francana trabalha como au-pair (babá) no estado de Connecticut, onde cuida das crianças de uma família americana, profissão muito tradicional entre os estrangeiros. “O ano passado nós tivemos um lockdown total aqui por quase três meses e apenas os serviços essenciais estavam funcionando. Desde o começo, a maioria das pessoas sempre respeitou muito em relação ao distanciamento e uso de máscaras. É assim até hoje”, disse Lauany, mesmo com as flexibilizações.
No país, quase 150 milhões de pessoas já tomaram ao menos a primeira dose da vacina. O presidente Joe Biden estabeleceu uma nova meta de vacinação no país, que é de imunizar 70% da população adulta até o dia 4 de julho, data em que se comemora o Dia da Independência dos Estados Unidos.
“Como eu sou babá e cuido de criança, entrei no grupo de prioridades na vacinação e consegui tomar a minha. Tomei a minha segunda dose no mês passado e estou muito feliz e aliviada. Até os bares e restaurantes estão fechando mais tarde... A vida está voltando ao normal aqui”, disse Lauany.
Para chegar à situação atual, foi necessária a colaboração coletiva. “Foi muito difícil no começo, porque a gente ficava em casa quase 24 horas por dia sem ver ninguém. O máximo que fazíamos era sair para caminhar ou fazer trilha, sempre usando máscara. Principalmente para a gente que está aqui sozinho, sem a família e sem amigos, acho que foi muito mais difícil lidar com isso longe de todo mundo. Mas estou muito feliz que as coisas estão melhorando aqui. Espero também que isso passe logo no Brasil. Que todo mundo consiga tomar a vacina e a vida melhore”.
Camila Ticianelli tem 32 anos e vive em Dublin, na Irlanda, há quatro anos. É jornalista de formação e atualmente trabalha em uma empresa de importação e distribuição de alimentos do país. Por lá, ela ainda não se sente segura o suficiente, mas a Irlanda começa a dar indícios de uma volta à “vida normal”. Ticianelli, também de Franca, contou que passou por três lockdowns no total, e que está saindo do último nesta semana.
“Aqui na Irlanda ainda temos restrições. Estávamos em lockdown absoluto desde o dia 27 de dezembro até a última terça-feira, 4, data em que foram abertas as lojas de construção e jardinagem. No próximo dia 10, o governo decidiu que vai abrir algumas outras coisas que incluem, por exemplo, salões de beleza, encontros de até 15 pessoas ao ar livre, funerais, missas e casamentos com no máximo 50 pessoas”, disse Camila. Nas próximas semanas, lojas de comércio, hotéis, pousadas, restaurantes, bares, partidas de futebol e academias vão começar a abrir gradativamente.
Mesmo sendo um país pequeno, as restrições foram longas e rígidas. “Tudo foi seguido à risca. É claro que não vou falar que não aconteciam encontros nas casas das pessoas, porque aconteciam. Mas na cidade em si, nada estava acontecendo. Não existia absolutamente nada aberto, apenas mercado, farmácia e lojas de conveniência”.
Ainda assim, com uma flexibilização do governo no fim do ano passado, os casos voltaram a disparar. “A Irlanda começou a ter muito casos por conta das festas de fim de ano. No dia 27 de dezembro tiveram que fazer um lockdown de urgência, porque estávamos tendo coisa de 10 mil casos por dia, o que para a Irlanda é muito.”
Depois de todo esse tempo, Camila se vê aliviada pelo cenário que as próximas semanas projetam, mas ainda está tensa. “É um alívio misturado com uma sensação de que não parece que isso está acontecendo. Eu, por enquanto, não estou muito animada. Ainda tenho medo de que qualquer coisa possa acontecer, como no fim do ano. Só que é uma sensação de alívio, é como se fosse uma luz no fim do túnel”, explica.
A preocupação atravessa parte do globo terrestre e chega também ao interior de São Paulo. “Oro muito todos os dias e peço para abençoar o Brasil, onde minha família está, pessoas que eu amo e que minha vida estão. Eu ia para o Brasil ano passado ver minha família e não fui, então a gente acaba perdendo um pouco da essência do que era a vida da gente antes”, disse, emocionada.
Na Irlanda, pouco mais de 250 mil casos foram confirmados no país, que tem uma população estimada de 4,8 milhões de pessoas. Dessas, quase 5 mil não resistiram às complicações da covid.