Mencionado em poemas chineses do século 700 AC, o minari (paroxítona) tem a aparência de um agrião de folhas bem miúdas, mas também guarda semelhança com a salsinha. Embora sua origem esteja longe, no outro lado do mundo, as folhas integram receitas preparadas em restaurantes específicos de bairros paulistanos. Encontrada com nomes diferentes em português, no Bom Retiro é “agrião coreano”; na Liberdade, “salsa japonesa” e “aipo chinês”. Nas três culturas é ingrediente de pratos simbólicos associados à prosperidade, beleza e vida.
Alguns leitores que me acompanham devem estar imaginando que me confundi com os espaços e destinei a este Nossas Letras matéria mais compatível com a seção de culinária, embora com frequência me embrenhe por caminhos verdes para falar da condição humana. Esclareço então ser este o presente caso, porque além de alimento para o corpo, “Minari” é título de filme asiático. Lee Isaac Chung, roteirista e diretor, inspirou-se em suas infância e família para criar o enredo. Concorreu ao Oscar deste ano em seis categorias, mas só levou o prêmio de melhor atriz coadjuvante: Yuh Jung Youn.
Foi ao ouvir o discurso de agradecimento dessa atriz de 73 anos, inteligente e alegre, além de levemente irônica, que decidi pesquisar sobre o título, dos poucos da premiação que não consegui ver porque nem foi disponibilizado pelo serviço de streaming, nem havia chegado ao Brasil até a semana passada.
Apesar dos cenários serem os de dois estados norte-americanos, a obra, premiada também em outros festivais importantes, é toda coreana, cinema que admiro. O papel de Youn é o de uma avó, Sonnja, que viaja da Coreia aos Estados Unidos para ajudar a filha Monica e o genro Jacob a cuidar de dois filhos- a garota Anne e o menino David, que sofre de uma doença cardíaca.
O casal trocou o trabalho na Califórnia por um pedaço de terra no afastado Arkansas; e pretende cultivá-lo com vegetais demandados pela crescente comunidade coreana local. O sonho do imigrante está contido naquele padrão conhecido - “ser bem sucedido (e aceito) na América”. Mas as coisas não vão muito bem e a chegada da avó não convencional, embora sábia e amorosa, aumenta o desconforto.
Aos poucos, porém, a relação da velha senhora com a família, e mais diretamente com o neto, irá transformar o modo de vida de todos. O enredo mostra luta, disciplina, enfrentamento do preconceito, estresse, dificuldade de comunicação, momentos de tristeza. Também frustração, que sempre aparece para desanimar ou desafiar a jornada do ser humano. Os momentos mais preciosos, diz o autor de um site espanhol, são os que reúnem avó e neto em diálogos num inglês misturado com coreano.
Onde é que entra o minari? Ele não entra, ele sai da bolsa dessa avó que traz as sementes da sua Coreia para plantá-las em solo americano. Mas elas pedem, além de água limpa, algum tempo para brotar, crescer, enfolhar a ponto de serem colhidas.
No Brasil, como ninguém sabe o que é essa verdura, os responsáveis pela tradução acrescentaram uma frase explicativa: “Minari- Em busca da felicidade.” Ficou bem resolvido, pois tal procura pede esforço, criatividade, resiliência, empenho, disponibilidade e parcerias. Um poeta já disse que é impossível ser feliz sozinho.
Como me recuso a dar spoiler, só digo que ando pensando nas sementes que podem primeiro frustrar para depois gratificar; nas que vindo de fora, germinam em terra estrangeira; nas que mal brotam, fenecem, porque sua natureza é frágil ou o solo não é apropriado; nas que nos são oferecidas amorosamente e desdenhamos porque nos falta discernimento; nas que uma geração deve cultivar para oferecer à seguinte, como um legado.
Andei pensando também no tempo exigido entre o plantar e o colher, algo que a sociedade imediatista parece ter desaprendido.