11 de julho de 2026
ENTREVISTA

'É como se fosse uma libertação', diz modelo francana que se tornou artista de circo não binária

Por Denise Silva | da Redação
| Tempo de leitura: 4 min
Well Medrano
A modelo francana Daniela Peixoto de Barros

Morena, cabelos na cintura, magra, 1,74, olhos marcantes, sobrancelhas grossas e queixo quadrado. A francana Daniela Peixoto de Barros não demorou para chamar atenção e se tornar uma modelo requisitada. Ainda na adolescência, aos 16 anos, ganhou destaque em um concurso de moda, foi contratada e viajou o mundo para desfiles e campanhas. Aos 18 já estava fotografando em Paris.

Assista a entrevista de Dani no 1x1 clicando aqui.

Uma das idealizadores do Festival Brilhe de circo drag (leia mais aqui), Dani passou pela França, Inglaterra, Itália, Argentina, estampou revistas e se tornou até modelo de embalagem para tintura de cabelos. Nem por isso deixou a cidade. Em 2011, entre uma temporada e outra, decidiu estudar ciências contábeis no Uni-Facef. “Precisava dar um tempo, pensar se era aquilo mesmo”. Logo no primeiro ano de faculdade, com a bagagem que tinha da infância, quando tinha disputado ginástica olímpica por Franca, decidiu fazer uma oficina de tecido acrobático. “Foi paixão à primeira vista.”

Foi o primeiro contato de Dani com as artes circenses. “Eu comecei a buscar conhecimento, porque queria saber mais”. Mas a Europa ainda não estava preparada para deixar Dani no Brasil. Pelo curso de contabilidade, ela ganhou uma bolsa para estudar em Madrid. Mas, enquanto cumpria seus deveres com a faculdade, aproveitava para se aprofundar no mundo do circo.

Terminado o intercâmbio, era hora de voltar para concluir a faculdade. Logo, as ciências contábeis teriam um sentido ainda maior na vida da modelo. “Comecei a estudar fraudes contábeis e percebi que na lista de autores dessas fraudes, não existiam mulheres.” A conclusão foi que ao longo da história, a quantidade de homens que ocupavam o topo de grandes empresas e organizações era infinitamente maior que a de mulheres.  “Me questionei porque as mulheres não apareciam", lembra. “Foi uma grande descoberta.”

Foi para questionar o papel do gênero que ela se vestiu de homem pela primeira vez. “Comecei a perceber que o empoderamento feminino é uma conquista muito recente e queria abordar isso através da arte.” Ganhava vida o personagem Allan. “Na época, eu já trabalhava com circo e aproveitei a oportunidade de explorar o tema de forma mais lúdica.” Além de modelo e contabilista, Dani já trabalhava com circo e começou a compartilhar suas descobertas nas artes.

A menina filha de advogados concurseiros, que morou no Centro da Cidade, no Jardim Lima, no Bueno e até em Batatais, continuava sendo procurada como modelo. Terminada a faculdade, a agência convidou Dani para voltar a trabalhar no mundo da moda. Desta vez em Buenos Aires, para onde ela logo se mudou. Mas aí, o circo - e Allan - já eram uma presença constante. Terminada a temporada, Dani voltou ao Brasil, continuou fazendo as oficinas de circo e buscando aprender mais. “Pesquisando na internet, descobri que existiam drag kings. Achei muito engraçado. Eu fazia o personagem há 3 anos, mas aí nomeei o personagem de Allan King”.

O ano de 2018 foi agitado para Dani. Junto com o companheiro, Carlos Sugawara, viajou várias cidades no país, como Recife, João Pessoa, Brasília, Goiânia, várias cidades do interior de São Paulo, inclusive Franca, levando workshops e apresentações gratuitas em que o tema já era mais voltado à comunidade LGBT. “Logo chegou março de 2020, a pandemia e começamos a dar aulas online. Com a parceria com uma das alunas que tinha habilidades em edição de vídeos, nasceu a ideia do Festival Brilhe”.

Não binariedade
Hoje, Dani se identifica como uma pessoa não-binária, alguém que não se vê totalmente como mulher, nem totalmente como homem. “Dentro dos estudos de gênero, comecei a me encontrar. Comecei a explorar para além do universo feminino, o que me deu uma grande liberdade.”

Mesmo que a arte tenha permitido que a descoberta fosse feita de forma mais suave e Dani diga que o processo “foi lindo”, os medos e dificuldades não deixaram de existir. “Teve um momento que comecei a questionar como poderia ser viver como uma pessoa não binária em uma sociedade binária? Às vezes dá um medo, uma insegurança... mas volto a me fortalecer quando estou em contato com outros artistas, ativistas, jovens não binários que lutam pela causa. Isso gera um enorme conforto.”

A rotina para alguém fora dos padrões, também exige paciência. “Na receita federal pediram para eu tirar a máscara das duas vezes que fui lá, porque na minha identidade ainda está o cabelo comprido”, lembra, mas encara tudo com tranquilidade. “Entendo que essas vivências fazem parte de um cotidiano de uma pessoa não binária.”

Dani não se importa de ser chamado de ele ou ela. “Desde uma perspectiva pessoal, minha, existe uma fluidez em relação ao feminino, masculino e neutro. Tenho muito do feminino em mim. Afinal, foram quase 30 anos como mulher e um pouco mais de 3 anos enquanto uma pessoa não binária. E depois o masculino está mais em uma expressão do que uma masculinidade de fato. Assim como o neutro. É como se fosse uma fluidez com o feminino latente”, pondera sobre seu momento, que classifica como um processo de descoberta. “É como se fosse uma libertação, uma experimentação. Uma consciência despertada”, explica com a gentileza e docilidade que marcaram toda a entrevista.

Crédito fotos: Well Medrano / Virginia Guimarães / Charly Vera / Glaucio Miranda / Derruci Fotografias / Maxi Vernazza / Mateus Bagatini / Foto da embalagem