Nos últimos dias, diante das evidências, ampliou-se entre nós a perplexidade diante da morte do menino Henry, quatro anos, torturado pelo padrasto, um vereador carioca com diploma de médico. Segundo a polícia, houve conivência da mãe, atualmente ocupando cargo de confiança no Tribunal de Contas do Rio de Janeiro.
A biografia do “Dr. Jairinho”, eleito com 16 mil votos, revela homem violento, embora a aparência de bom moço. Há relatos de agressões contra ex- mulher, filhos, amantes e filhas dessas. A primeira registrou queixa antes de se divorciar, mas voltou atrás e a retirou. As outras não ousaram fazer o mesmo, temerosas de que o abusador pudesse se vingar: esse é um dos males mais antigos do Brasil, o poder que intimida os mais fracos. E as vozes que se calam podem ajudar a alimentar monstros.
Monique é a mãe que corresponde bem ao estereótipo de mulher obcecada por padrões estéticos quase inalcançáveis que pedem lipos, silicones, botox, dietas, academias e tudo mais que o mercado disponibiliza. Essa, aliás, tem sido marca de um modo de existir que encontra no vazio interior uma de suas molas e no consumismo outra. Muitas não querem filhos que lhes deformem o corpo e exijam cuidados. Monique era uma delas.
O ex-marido, Leniel, disse em entrevista que levou tempo a convencê-la de que um filho deveria ser bem-vindo, porque ela hesitou quando se descobriu grávida. Ele, que sonhava com a paternidade, parece ter sido muito presente na vida do filho e viu na pandemia “a sonhada oportunidade de ficar mais tempo em casa,” já que trabalhava em plataformas de petróleo em alto mar. Ironicamente foi isso, uma convivência mais próxima, que azedou a relação do par, separado no final do ano passado. Dois meses depois Monique foi morar com o doutor.
Um casal formado por Jairinho e Monique não teria condições de educar uma criança. Porque ele revelou-se alguém que, além de graves distúrbios psíquicos, sentia-se invulnerável por conta de seu cargo e relações suspeitas.Porque ela reafirmou-se narcisista que não queria perder o status alcançado com o novo casamento. Egocêntricos não conseguem amar ninguém. E na relação entre pais e filhos, que não deve ser romantizada, é bom dizer, o amor tem de ser maior que a raiva, para que a morte não vença a vida.
Acho que precisamos falar sobre o Henry para elaborar essa tragédia que nos magoa, entristece e mancha enquanto humanos. Às vezes queremos ficar distantes porque admitir que uma mãe silenciou e permitiu que seu filho fosse morto é reconhecer que humanos podem fazer coisas horríveis. Os gregos sabiam muito sobre a complexidade da alma; não por acaso nas suas tragédias há tantos infanticídios.
Mesmo que seja desconfortável, temos de conversar a respeito do que aconteceu, porque é uma repetição de outro caso, o de Isabela Nardoni, já quase esquecido. De lá para cá, o que mudou? Em nosso país, já tão açoitado por outras catástrofes, na última década 2083 crianças de 4 anos e menos foram assassinadas dentro de casa por adultos que deveriam em tese protegê-las. Os dados são da Associação Brasileira da Pediatria, que acredita em número maior de vítimas, dada a subnotificação.
No caso de Henry, é muito perturbador pensar que alguns desconfiavam e outros sabiam que o menino era vítima da crueldade e violência do padrasto, a ponto de vomitar em presença dele. Entretanto, ninguém fez nada, de fato, para proteger a criança, desamparada naquele mundo onde apenas o pai tinha condição de socorrê-la mas não conseguiu fazê-lo; algo lhe escapou. Nenhuma das esferas de proteção funcionou, o que faz crescer a percepção de que vivemos numa sociedade em que incontáveis adultos (?) estão se isentando da responsabilidade pelas crianças de seu entorno- e isso, em todas as classes sociais. São muitas as que vêm pedindo socorro de diversos modos, como o fez Henry sem ser ouvido. Será que chegamos a uma normalização da violência, onde é mais conveniente não acreditar, mais prático se omitir, mais fácil negar?
Não devemos deixar que a morte de Henry sirva apenas à nossa perplexidade. Esse assassinato não pode ser esquecido. Deve ser motivo para que todos, inclusive nos diversos níveis institucionais de proteção, repensem suas obrigações para com a infância dos indefesos, dos frágeis, daqueles de quem se diz serem o nosso futuro. A que futuro pode aspirar uma sociedade que alimenta a impunidade, aposta no individualismo e não zela pela vida das suas crianças?