Esta última semana foi mais uma demonstração de que os efeitos das medidas de restrição, sempre duras e polêmicas, ainda que necessárias, não são imediatos. Com regras ainda mais duras do que as impostas pelo Estado, Franca viveu dias de comércio fechado, menor fluxo de pessoas nas ruas e tensão no sistema de saúde. Mesmo assim, nem isso ainda foi suficiente para controlar o avanço da covid-19 no município.
Não há solução mágica. O resultado dessas restrições deve começar a aparecer daqui algumas semanas - e, apenas, se a população aderir de forma mais efetiva. Por enquanto, nem mesmo os apelos de autoridades, profissionais da saúde da linha de frente e de fiscais da Vigilância conseguiram encolher a circulação dos francanos. A cidade é uma das que têm o menor índice de isolamento social do Estado.
O dia em que Franca registrou o maior índice de isolamento social foi na terça-feira, 23, com taxa de 42%. O número, que ainda é considerado baixo para controle da pandemia, veio acompanhado de dias com 38% e 37%. De acordo com especialistas de todo o país, o índice ideal para impedir o avanço da covid é entre 60% e 70%. O mínimo aceitável seria um isolamento de 50%. Os dados oficiais deixam claro que, mesmo com o comércio fechado, os francanos continuam circulando intensamente pela cidade.
Outro número que não indicou melhoras até o momento foi a quantidade de casos confirmados ao longo da semana. Com 505 diagnósticos positivos de segunda a sexta-feira, a variação é muito alta, com dias com relativamente poucos casos - e outros, com praticamente o dobro.
Homero Rosa, médico da Vigilância Epidemiológica, afirmou que análises semanais (comparações de uma semana com os mesmos períodos anteriores) são mais confiáveis e que uma média de 350 a 500 casos a cada sete dias já indicaria melhora na situação. “Isso impactaria positivamente no controle da pandemia, mas claro, não esperamos que esse número diminua em curto prazo. Normalmente essa tendência reflete nas ações mais efetivas, com mais restrições. E isso (o resultado da fase restritiva adotada em Franca) vamos começar a observar talvez em dez dias”, disse.
Contágio em queda
A boa notícia é que desde o primeiro dia em que entraram em vigor as medidas determinadas pelo prefeito Alexandre Ferreira (MDB), o índice de transmissão do vírus caiu. Depois de alcançar picos extremos, sendo uma das cidades do país com maior índice de infecção, Franca hoje está entre as mais baixas do Estado de São Paulo, com RT (Número de Reprodução) a 0,6.
Isso significa que a cada 100 pessoas com o vírus podem infectar outras 60, e consequentemente desacelerar a doença. É o primeiro passo para reduzir o impacto da doença na cidade, mas precisa ser sustentável nos próximos dias para que se efetive. Muitos dos que estão internados hoje nos leitos de UTI foram infectados entre final de janeiro e início de fevereiro, quando a pandemia estava fora de controle na cidade. O reflexo disso são as UTIs e leitos de enfermaria praticamente lotados, com dezenas de pessoas internadas de forma improvisada no PS "Álvaro Azzuz".
Autuações e desobediência
A Vigilância Sanitária emitiu, de segunda a sexta-feira, 15 autos de infração para os que desrespeitaram às regras do decreto municipal, entre festas clandestinas, academias e comércios. Além disso, mais de 80 orientações foram feitas aos donos de estabelecimentos flagrados cometendo irregularidades.
Uma dessas infrações foi aplicada logo no primeiro dia da nova medida, quando o dono de uma loja de jeans teve seu estabelecimento autuado no Centro da cidade. Ele não respeitou as regras e nem o fiscal que estava presente na abordagem. Dois dias depois, teve sua loja interditada.
No Diário Oficial do Município, a prefeitura detalhou todos os motivos da interdição, além das infrações cometidas pelo empresário. “Manter aberto o estabelecimento com atendimento presencial, contrariando os Decretos do Município e do Estado, conhecido por Plano São Paulo; obstruir, dificultar, debochar, embaraçar, retardar a ação fiscalizadora (incitando os transeuntes contra a fiscalização) da autoridade sanitária competente; não apresentar as licenças dos órgãos competentes (Prefeitura e Corpo de Bombeiros) e promover aglomeração de pessoas”.
A Acif (Associação do Comércio e Indústria de Franca), normalmente contrária às medidas restritivas, ressaltou que no momento apóia as ações adotadas para o controle do vírus e da preservação dos atendimentos médicos, mas que também luta para a sobrevivência das empresas.
“Em razão dos alertas de entes públicos e privados em relação a um possível colapso no sistema de Saúde de Franca, a Acif entende que todos os esforços para garantir o atendimento médico à população devem ser feitos. Estes mesmos esforços também devem ser empenhados para garantir a sobrevivência de empresas e empregos e, por esta razão, a entidade tem lutado nas esferas estadual e federal pela prorrogação de impostos, manutenção do auxílio emergencial, linhas de créditos com condições especiais e reativação de benefícios como o Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda. As classes empresarial e trabalhadora, tão penalizadas ao longo do último ano, precisam ter seus direitos à Saúde e ao Trabalho garantidos”, disse, em nota, a associação.