04 de junho de 2026
SUPERAÇÃO

Da quase desistência à titularidade no Botafogo: a história do goleiro francano Douglas Borges; ASSISTA

Por Lucas Faleiros e Higor Goulart | da Redação
| Tempo de leitura: 8 min
Vítor Silva/Botafogo
Douglas Borges se prepara para jogar contra o Bangu

Todo mundo nasce com um sonho. É algo natural. Alguns sonham ser advogados, outros, médicos. Mas, pelo menos no Brasil, muitos querem se tornar jogador de futebol. O esporte está enraizado na cultura do país e é visto como uma oportunidade de mudança de vida. Mal sabem os pequenos meninos e meninas que o caminho para alcançar o profissionalismo é árduo e faz surgirem várias dificuldades. O goleiro francano Douglas Borges é prova viva disso. Aos 30 anos, ele já cogitou desistir da carreira de jogador, mas superou os desafios e conseguiu chegar a um dos maiores clubes do país: o Botafogo.

Tudo teve início em Franca, quando ele ainda era um garotinho e seus pais decidiram o levar à sua primeira escolinha de futebol, o Camarãozitos. A intenção principal de "seu" Célio e dona Marislei não era fazer do filho um jogador de futebol. Longe disso. De início, os dois só queriam manter o garoto longe das ruas e viam no esporte uma forma de educação. Douglas encarava as aulas como uma diversão.

“Em Franca foi tranquilo. Eu era menino e não tinha muita pressão. Então, era muito bom. Jogava apenas por gostar. Só tinham os meus pais lá gritando ‘vai filho!’. Não teve muita coisa fora do normal. Só gostava de jogar as partidas e era muito bacana”, relembra o goleiro.


Início de Douglas Borges foi em Franca

Com o passar dos anos, o jovem foi evoluindo em todos os fundamentos e jogou ainda nas escolinhas Francaninha e Tok de Bola. Por onde passou, foi se aperfeiçoando e absorvendo ensinamentos. “Me lembro muito de meus antigos treinadores. O Mamão, Siedes, Serginho, Tecão, Maurão, Sidão... Principalmente o Mamão, que me ensinou basicamente todas as técnicas que sei. Eles ajudaram muito na minha formação e carrego os ensinamentos de todos até hoje”.

A diversão, porém, passou a virar algo sério. Com 12 anos, Douglas recebeu um convite para jogar pela base do Grêmio Sãocarlense após se destacar em uma bateria de testes realizada na cidade de São Carlos. “Ninguém nem imagina a dificuldade que foi para mim deixa-lo lá. Nossa. Quando olhei para trás... me perguntei o que estava fazendo. Depois, a ficha começou a cair e eu pensava ‘parece que meu filho vai mesmo ser profissional’”, recorda Célio, pai do jogador.

O jovem não precisou de muito tempo na cidade do interior de São Paulo para chamar a atenção de um clube da elite do futebol brasileiro. Com algumas indicações, foi convidado para realizar testes em um centro de preparação em Atibaia. Na cidade, agentes do Cruzeiro observaram o jovem atleta, com 15 anos de idade àquela época, e o levaram para a equipe. “Era passagem do infantil para o juvenil. Fiz dois anos e pouco de juniores e subi para o profissional depois da Copa São Paulo de 2009”.


Tempos de base do goleiro no Cruzeiro

Ali, teve a oportunidade de conhecer um de seus maiores ídolos no futebol, o goleiro Fábio, com quem treinava lado a lado e foi desenvolvendo grande admiração. Mas, como nem tudo são flores, e a carreira de um atleta profissional costuma ser cercada de provações, foi na sua primeira vez em um time grande que Douglas se viu em situação delicada. “Tive duas lesões no joelho e isso deu uma atrapalhada na minha sequência no elenco principal. Acabei descendo para a base e, depois, rodei por vários clubes sendo emprestado”.

Entre 2010 e 2013, o goleiro esteve nos times do Itaúna, Monte Azul, Tupi e Volta Redonda. Seu contrato com o Cruzeiro se encerrou naquele ano. Junto com ele, sua carreira quase chegou ao fim. Em seu retorno ao Tupi em 2014, desta vez em definitivo, o atleta passou a ter de lidar com o cenário vivido por grande parte dos jogadores de clubes pequenos no país: baixo salário e, ainda assim, atrasos no pagamento. “No Tupi, tive uma lesão antes do início do campeonato. Foi lá que eu dei uma desanimada. Já recebia pouco e ainda me machuquei. Para piorar, o pessoal começou a atrasar o meu salário”.

“As pessoas de fora acham que é muito fácil. ‘Ah, jogador de futebol... ganha muito dinheiro e tal’. Não é assim. Os que estão em times menores sofrem bastante. Eu sofri muito”, relata o goleiro.

Como já tinha esposa e filha, Douglas resolveu retornar a Franca para trabalhar junto com seus pais na banca de corte da família após o fim do campeonato mineiro. De volta à cidade natal, foram os pais do rapaz que o incentivaram a tratar a lesão e não abandonar o futebol. “Ele chegou e disse que não iria jogar mais. Só ia ajudar na nossa banca. Mas, como lá se usa muito o braço, que era o que ele tinha machucado, sentia muita dor. Falei que de qualquer forma teria que tratar o ombro. Ele se recuperou e voltou para o Volta Redonda”, conta a mãe.


Douglas treinando no Volta Redonda

Após um ano no clube carioca, o atleta se viu mais uma vez convivendo com os empréstimos. Ficou alguns meses no Ceará e, depois, acabou indo para o Remo. Por fim, ao término do ano de 2016, regressou ao Volta Redonda, onde se estabeleceu por quatro anos. Lá, no entanto, outro antigo problema voltou a atormentá-lo: as lesões. “Minha pior fase foi em 2018. Fiquei oito meses parados por conta de outra lesão no mesmo ombro esquerdo. Tinha medo de cair no chão. Até pegar o jeito de novo... Fora isso, o Volta brigava para não cair no estadual. A cobrança dos torcedores era muito grande”.


Douglas jogando pelo Volta Redonda

Para quem já havia dado a volta por cima uma vez, não seria impossível repetir o feito. No Campeonato Carioca de 2020, Douglas alcançou a sua redenção e foi eleito o melhor goleiro da competição atuando pelo Volta Redonda, que fez grande campanha e ficou com o terceiro lugar. As atuações, é claro, despertaram o interesse de outros times. Dali pra frente, ele deslanchou.


Douglas Borges foi eleito o melhor goleiro do Cariocão

Após breves passagens pelo CRB e Novorizontino, pelo último sequer chegou a jogar, o goleiro recebeu uma ligação especial. “Dois dias depois de assinar com o Novorizontino, o treinador de goleiros do Botafogo, Flávio Tênius, me ligou e perguntou se eu conseguia ser liberado. A direção do Novorizontino foi muito bacana comigo. Disseram que era uma oportunidade única. Eu fui”.

O dia 5 de março de 2021 foi extremamente especial para Douglas Borges. Pouco mais de sete anos depois de seu contrato com o Cruzeiro encerrar-se, ele era apesentado em um clube de grande valor no futebol brasileiro. “Fico muito feliz e honrado em poder vestir uma camisa tão pesada. Sei da pressão que é. Tem que trabalhar muito mais do que em um clube de menor expressão. A cobrança é grande todos os dias”.


Apresentação no Botafogo

Seu grande sonho é conquistar títulos e ajudar seu novo time a retornar ao seu lugar de direito: a primeira divisão do Campeonato Brasileiro. Pelo menos por enquanto, Douglas tem feito a sua parte. Já são três partidas como titular no gol do Fogão. Saiu vencedor de duas delas, uma pelo Cariocão e outra pela Copa do Brasil, e não tomou sequer um gol somando todos os jogos. Melhor do que isso, ainda se destacou fazendo boas defesas.


Douglas atuando contra o Moto Club

Agora, ele pode olhar para trás e ter certeza de que todo o sofrimento e cada batalha valeu a pena. “Me vejo como um cara vencedor. Passei por muitas situações ruins e outras boas. Mas, vejo que meu esforço foi recompensado. Agora, é me esforçar mais para me manter aqui, conquistar títulos e o acesso. É isso o que quero nesse momento”, finalizou Douglas.


Pais e técnicos

Não é só o goleiro Douglas Borges que fica emocionado ao relembrar tudo o que passou e ver onde chegou. Agora separados por uma viagem de mais de nove horas de duração do antigo garotinho que começou a jogar futebol por diversão e nunca mais parou, os pais e treinadores de infância de Douglas compartilham da sua felicidade.

“O Douglas é tudo para mim. É extraordinário. O filho que todo pai gostaria de ter. Eu só tenho que desejar para ele toda a sorte do mundo. Tudo de bom para você, meu filho! Eu te amo muito”, se declara o pai, Célio.

A mãe, Marislei, relembra todo o sofrimento vivido por ele e reforça os méritos de seu filho. “Só a gente sabe o tanto que lutou e sofreu. Foram várias lesões. O Douglas é muito focado e disciplinado. Merece muito sucesso. Quero que tenha muita felicidade e que seja realizado nessa nova etapa na vida dele. Que seja muito abençoado por Deus. Te amo, filho”.


Pais do jogador se orgulham do filho
 
Nelson “Mamão”, o treinador de goleiros lembrado com carinho pelo atleta, diz que sempre apostou na sua profissionalização. “Era acima da média. Nós já tínhamos certeza do potencial dele e hoje isso se confirma. Muito humilde, sabe ouvir e busca o aprendizado. Não chegou no Botafogo à toa. Douglas, eu tenho certeza que ainda é pouco para você. Seu potencial é para Seleção Brasileira. Nunca se esqueça de sua família e do seu berço. Nós torcemos muito por você”.


Mamão ensinou a Douglas técnicas de goleiros

Siedes Aparecido Vieira, que viu vários jovens sonhadores passando pelos seus treinamentos, não conseguiu conter a emoção ao falar do sucesso de sua antiga joia. “Ele já tinha o dom. Era uma postura, uma leitura de jogo diferente. Dava pra ver no olhar dele. Eu, Serginho e Mamão só ajudamos a lapidá-lo. Agora, ele realiza o seu sonho e o de muitos colegas. Fico muito feliz ao ver o patamar que alcançou. Antes, Douglas, eu precisava olhar para baixo. Hoje, tenho que olhar para cima para falar contigo. Cresceu como homem e atleta. Que Deus te abençoe nessa empreitada. A cidade está na torcida por ti”.



Siedes treinou Douglas na infância


Abaixo, você confere o documentário que conta sobre a vida de Douglas Borges e, em seguida, a entrevista na íntegra com o goleiro: