Durante a pandemia do coroavírus, um restaurante popular se tornou ainda mais essencial com o aumento exacerbado nos valores dos alimentos e as dificuldades que a população enfrenta com o fechamento de diversas atividades econômicas. O programa Bom Prato foi criado em 2000 pelo governo do Estado de São Paulo. O intuito sempre foi atender a população em situação de vulnerabilidade social, servindo refeições completas por um preço justo e acessível a todos. Em Franca não é diferente.
Algumas mudanças foram feitas no Bom Prato da cidade com a pandemia. Desde a chegada do coronavírus ao município, o programa passou a distribuir refeições em forma de marmita, além de disponibilizar o jantar – que antes não existia. Por dia, são distribuídas 1.200 marmitas no almoço, além de 300 jantares e 300 cafés da manhã.
O cardápio é variado. Toda semana um cartaz é posto na porta do restaurante com a programação completa, dia a dia. Não há restrição para o público. Apesar de ser destinado principalmente às pessoas que realmente precisam, o acesso é ilimitado, podendo qualquer cidadão adquirir sua refeição. A reportagem esteve no local e viveu a experiência de passar longos minutos de espera, sob o sol escaldante.
Foram 45 minutos de aguardo na fila que contornava a esquina da rua Ouvidor Freire. Era possível notar pessoas de diversas classes sociais esperando o momento de conseguir a refeição. Desde trabalhadores da região, entregadores que entre uma viagem e outra paravam para conseguir o almoço, moradores de rua com suas cobertas em uma mão e as moedas na outra e, principalmente, idosos.
A grande maioria que lá estava optava por duas marmitas. De acordo com relato de usuários, o permitido é que cada pessoa possa comprar até três refeições. Como disse Adriano Silva, 51, ele sempre opta por duas marmitas de uma vez. “Nem sempre eu consigo voltar no jantar, então prefiro garantir duas marmitas.” Adriano relatou que costuma aparar matos nas portas de casas em troca de algum dinheiro – que usa para pagar o almoço. “Às vezes, fico horas tentando conseguir umas moedas, então não posso desperdiçar a chance de pegar o máximo de comida que eu consigo. Fora que a fome é grande e tem dias que acabo comendo as duas de uma vez”, contou sorrindo.
Quem também costuma pegar duas marmitas é Sônia Arantes de Souza, 46. Por motivos diferentes de Adriano, a atendente relatou que a segunda refeição é para a tia que vive com ela. “Eu venho todo dia. Sempre pego uma para mim e uma para minha tia, de mais idade. É ótimo, pois além de barata, é sempre completa e conseguimos economizar bastante.”
Sônia comenta também que nem sempre consegue sair de lá com comida, devido ao grande número de pessoas. “Há dias que chego um pouco mais tarde e já sei que não vou ser atendida. Acontece de as marmitas acabarem e ficar gente sem.”
Nos dias que a reportagem acompanhou a movimentação, de fato, algumas pessoas não conseguiram seus almoços. Quando as trabalhadoras do local percebem que há poucos pratos para serem servidos, se inicia uma distribuição de senhas para garantir que alguns da fila possam ser atendidos.
O almoço começa a ser servido às 11h e por volta das 12h já entra em reta final de distribuição. De acordo com trabalhadoras do Bom Prato, a movimentação é mais intensa durante a semana - aos sábados e domingos, o fluxo é menor.
O jantar tem tempo de duração semelhante. Na semana passada a reportagem chegou às 17h40 no restaurante e já não tinham mais pessoas – ele começa a ser servido às 17h. De saída, uma funcionária, que preferiu não se identificar, comentou que normalmente “ é assim mesmo”. “De dia de semana dura esse tempo mesmo, em menos de uma hora já entregamos as 300 marmitas do dia. A procura é muito alta”, relatou.
Inaugurado em 2015, o Bom Prato de Franca, além de ser um serviço de importância social, aos mais vulneráveis, passou a atender ainda mais pessoas com a pandemia e o aumento dos preços dos alimentos nos mercados.
É o que comentou o entregador Luiz Carlos, 38. “Não vale mais a pena cozinhar em casa. Está tudo muito caro, além do trabalho que dá para a patroa”, brincou. Ele comenta que a rotina de entregas é corrida e entre uma viagem e outra, para no Bom Prato e pede para alguém na fila compras suas marmitas. “Sempre que dá eu passo aqui e peço para alguém pegar para mim. Assim, não atraso minhas entregas e ainda consigo levar a comida para casa quando sobra um tempo.”
Cuidados na pandemia
Nos dias em que o GCN esteve presente, praticamente todas as pessoas estavam de máscara. Nem todos usando devidamente, pois muitos as colocavam no queixo para conversar com alguém próximo na fila.
O distanciamento recomendado – com marcação no chão – foi bem respeitado, principalmente na parte final da fila. Quando estão mais próximas de serem atendias, as pessoas passam a respeitar menos. Próximo ao local de retirada das refeições, o distanciamento era quase zero.
Em algumas oportunidades, um funcionário do Bom Prato ia até a calçada para alertar as pessoas sobre as demarcações. “Por favor gente, vamos respeitar o distanciamento”, dizia o rapaz.