04 de abril de 2026
O 'START'

Dias após aposentadoria, o multicampeão Prass relembra início da carreira na Francana: 'Pontapé inicial'

Por Lucas Faleiros | da Redação
| Tempo de leitura: 13 min
Reprodução/GCN
Fernando Prass conversou com a reportagem do GCN na última sexta-feira, 12

Para alcançar um sonho e chegar ao topo no futebol, é necessário subir uma grande e espinhosa escada de desafios. Na carreira de Fernando Prass, goleiro que se tornou ídolo de várias torcidas no Brasil e se consolidou como titular das metas por onde passou, um dos degraus percorridos fica localizado em Franca.

O jogador, que se aposentou no último dia 25 de fevereiro, na vitória do Ceará diante do Botafogo pela última rodada do Brasileirão, deu seus primeiros passos no esporte com o time do Grêmio. No clube gaúcho, passou pelas categorias de base e ficou cerca de dois anos ocupando a posição de 4° goleiro na equipe principal, disputando vaga, inclusive, com um ídolo da torcida do Imortal, o goleiro Danrlei.

Porém, o seu “pontapé inicial” no futebol, como ele mesmo gosta de definir, aconteceu na Francana. No ano de 2000, Fernando Prass topou o desafio de sair do Grêmio, time consolidado na elite do Campeonato Brasileiro, para assumir a bronca e defender o gol da Veterana na série A2 do Campeonato Paulista.

Aquele seria o seu primeiro torneio disputado como profissional, já que no Grêmio, seu antigo clube, o atleta jamais havia participado de um jogo oficial. Vestindo a camisa esmeraldina, as coisas mudaram. Colecionando boas atuações, Prass foi um dos grandes destaques do torneio estadual e chamou a atenção de Sérgio Ramírez, treinador uruguaio que dirigia o Santo André, time contra qual o goleiro fez duas grandes partidas.


                           Prass passou pela Francana em 2000

Fernando, àquela altura, não sabia, mas Ramírez seria importantíssimo para a sua carreira. Em 2001, o uruguaio, ainda impressionado com as exibições do ex-goleiro da Francana, assumia o Vila Nova e indicava a sua contratação. Com a equipe goiana, Prass venceu o estadual daquele ano e virou ídolo da torcida.

Na temporada seguinte, foi levado pelo Coritiba, também graças a uma indicação de Sérgio Ramírez, onde ficou por três anos e meio, conquistando duas vezes o campeonato paranaense – invicto, em uma das ocasiões – e sendo o goleiro menos vazado em três edições consecutivas.

Na metade de 2005, foi contratado pelo União Desportiva de Leiria, de Portugal. Lá, permaneceu por três anos e meio até ser contratado pelo Vasco da Gama, em 2009. No clube carioca, Prass escreveu uma bela história. Ele ajudou a equipe a se reerguer, vencendo a série B do Campeonato Brasileiro daquele ano, e a voltar a ser campeã de um torneio de elite, a Copa do Brasil de 2011. Tudo isso com belas defesas e grandes performances.

Mesmo no auge, o goleiro topou, em 2013, o desafio de vestir as cores do Palmeiras, que tinha sido rebaixado à segunda divisão do nacional e apresentava um projeto de reconstrução. A história se repetiu. Fernando Prass se tornou ídolo da torcida palmeirense ao conseguir o retorno à série A e ainda conquistar mais títulos. Em um deles, o goleiro ficaria extremamente marcado.

Na Copa do Brasil de 2015, ele defendeu o gol palestrino com excelência e suas intervenções permitiram que a equipe erguesse a taça. Uma defesa em especial, em um chute de Fred aos 47 minutos do segundo tempo da semifinal, fez com que o Palmeiras conseguisse avançar à disputa de pênaltis e, depois, às finais, onde Prass brilharia de novo, marcando o último gol das penalidades contra o Santos e sacramentando o título do Verdão.

Em seu último clube, o Ceará, para onde foi em 2020, o camisa 1 ainda conquistaria mais uma taça, a da Copa do Nordeste, sobre o Bahia. Entretanto, como o próprio Prass descreve, nada disso seria possível se a sua passagem pela Francana não tivesse acontecido como aconteceu. Em Franca, a vitoriosa carreira do goleiro começou.


Confira, na íntegra, a entrevista exclusiva de Fernando Prass ao portal GCN:

Lucas Faleiros: Muita gente não sabe, mas você jogou na Francana no ano de 2000. Passou pelas categorias de base do Grêmio, subiu e foi contratado para jogar pela Veterana. Como foi viver essa experiência e o que te trouxe à cidade de Franca?

Fernando Prass: Então, a Francana foi o primeiro time pelo qual eu realmente atuei como profissional, né? Fiquei um ano na equipe principal do Grêmio, mas não fiz nenhuma partida. Eles tinham três goleiros mais experientes, que eram o Danrlei, o Murilo e o Sílvio. Sempre o 4° goleiro era um jogador da base e eu fiquei um ano ocupando essa posição. Depois, no outro ano, veio o Eduardo Martini para 4° goleiro e eu fui emprestado para pegar rodagem, pegar experiência. A primeira oportunidade que tive foi na Francana e, após, eu fui para o Vila Nova, Coritiba... Mas, o primeiro time foi a Francana.

LF: O primeiro campeonato que você jogou como titular, já como profissional, foi aqui na cidade e você foi muito bem, né? Muito se comenta que você teve ótimas atuações e ficou conhecido como pegador de pênaltis. Essa característica, então, não foi algo que surgiu no Palmeiras, nem no Vasco ou no Ceará. Você já era pegador de pênaltis desde o começo, ainda com 21 anos, atuando pela Francana?

FP: É... Essa questão de pegar pênalti é muito relativa, né? Têm muitos goleiros que em algumas fases pegam, outros que não pegam. É muito mais uma coisa de momento. Óbvio que alguns goleiros ficam marcados por algumas cobranças especiais, mas, se for pesquisar a funda, às vezes nem são esses que tiveram o melhor aproveitamento nisso. É que realmente alguns pênaltis marcam e eu fiquei marcado com isso.

LF: Você teve auges grandes no Vasco e também no Palmeiras. Nos dois times você ficou com essa fama de pegador de pênalti, mas dá para dizer que você começou a fazer isso por aqui, certo?

FP: É! A minha história começou na Francana. Me lembro que fiz dois bons jogos contra o Santo André, na A2, e o uruguaio Sérgio Ramírez era o treinador deles. Posteriormente, ele foi para o Vila Nova, também como técnico, e indicou a minha contratação. Ainda depois, no Coritiba, para onde ele foi como coordenador técnico, ele também indicou a minha contratação. Então, mesmo lá no Coritiba, muito se passou pelas minhas atuações na Francana.

LF: Então dá para dizer que foi aqui, em Franca, que você despontou para o futebol, foi o lugar que abriu os horizontes para a sua carreira?

FP: Sim. Foi o primeiro time em que eu consegui jogar, né? Óbvio, goleiro demora um pouco mais, eu mesmo só fui jogar com 21 anos, mas foi o start, o pontapé inicial para a minha trajetória no futebol profissional.

LF: Prass, você tem uma relação muito especial com os pênaltis, né? Não só como pegador, mas também por ter batido a última cobrança, a que acarretou na conquista da Copa do Brasil para o Palmeiras, em 2015. Foi emblemático. A dúvida que ficou é: você já tinha essa afinidade com cobranças de pênalti desde o começo da carreira, por exemplo quando jogou em Franca? Chegou a treinar isso alguma vez ou surgiu durante a carreira?

FP: Não, não... Foi um momento muito específico. O Marcelo Oliveira (técnico do Palmeiras em 2015), quando assumiu, treinava pênaltis toda semana. Isso mesmo que não tivessem jogos que poderiam ir para as cobranças. Naquele ano, tiveram dois jogos que foram para as penalidades e os goleiros precisaram bater: Coritiba x Fortaleza (pela Copa do Brasil) e Botafogo x Fluminense (pelo Campeonato Carioca). Não é que foram escolhidos. Eles foram obrigados a bater porque já tinha rodado todo mundo. Aí, eu comecei a treinar também por conta disso. Eu pensei “pô, vai que precisa e eu nunca bati um pênalti”. Começou ali no Palmeiras. Eu nunca tinha batido um pênalti na minha vida antes de bater aquele da final.

LF: Na Francana, então, você nunca tentou cobrar um pênalti sequer nos treinamentos?

FP: Não, não. Foi uma situação bem pontual.

LF: Fernando, no período que você passou aqui em Franca, qual a lembrança que você guarda com mais carinho? Seja da Francana ou da própria cidade. Você tem alguma saudade ou algo que se lembre com carinho além do fato de ter despontado para o futebol?

FP: A principal coisa foi a possibilidade de jogar. Porque, às vezes, alguns grandes jogadores... como por exemplo o menino do Internacional, o Daniel. Ele começou a jogar agora, no Gauchão, e tem quase 27 anos. Quer dizer, já não é mais tão menino, mas ele não teve a oportunidade de jogar antes. E na Francana eu tive. De repente, se eu tivesse ficado no Grêmio na reserva e não tivesse aceitado esse desafio, porque é um desafio sair do Grêmio, que estava na primeira divisão, e ir para a Francana... Para mim foi maravilhoso, porque, como eu disse, serviu muito para o meu amadurecimento como jogador e para que a minha carreira começasse.

LF: A posição do goleiro é complicada, né? Como você disse, tinha até ídolo no Grêmio, o Danrlei, e é uma posição muito específica. Não tem como ser improvisado em nenhum lugar, então você joga ou não joga. Não tem jeito, né?

FP: É, e goleiro tem um desgaste menor do jogo. Dificilmente se poupa um goleiro por cansaço ou ele é substituído no meio da partida. Você pode ver que têm muitos goleiros que fazem história nos times ficando por muito tempo (como titulares).

LF: Prass, no Palmeiras você foi treinado pelo Oscar Rodriguez, treinador de goleiros. Você sabia ou ele já comentou que já jogou em Franca, também sendo goleiro da Francana? Ele chegou a comentar se tem alguma boa lembrança jogando pelo time?

FP: Sim! Fiquei sabendo. Na época, Ele mesmo me falou que também jogou pelo clube, mas não chegou a entrar em maiores detalhes. Falou sobre a coincidência de ele ter jogado também. Só que eu acho que faz bastante tempo que o Oscar Jogou por aí. Foi lá na década de 80.

LF: E, Prass, como você avalia a sua passagem por aqui? Você disse que foi muito boa e que foi importante para que despontasse no profissional. Mas, além da questão de adquirir experiência, no que você pensa que mais evoluiu enquanto esteve em Franca?

FP: Eu botei uma coisa na minha cabeça, né? Saí do Grêmio para ir para a Francana e eu tinha que me desenvolver bem. Porque, do contrário, voltaria para o Grêmio e não teria sentido a minha saída. Então, na época, me lembro que eu nem participava dos rachões que tinha na véspera dos jogos. Eu ficava treinando com o treinador de goleiros justamente para me aprimorar. Eu comecei a jogar futebol com 12 anos. Para 21, eram nove anos. Eu já tinha treinado por nove anos e precisava de jogo no profissional, que é totalmente diferente de jogar na base. Acho que a minha maior evolução na Francana foi em termo disso: começar a pegar ritmo de jogo na categoria principal.

LF: E aqui você fez algum amigo, um cara que você tenha levado para o resto da vida, seja jogador, treinador ou alguém da comissão técnica?

FP: Ah, tem sim! Tem o zagueiro Emerson, que jogou aí e depois foi para o figueirense, eu falo com ele até hoje; o Carlão, meu treinador de goleiros na época, que é de Santos, também converso com ele; o Sílvio, um zagueiro que jogou aí. Então, já faz bastante tempo, mas eu mantenho contato com algumas pessoas, só que mais da parte dos jogadores.

LF: Dá para ver, pelas suas redes sociais, que você se lembra com carinho da Francana. Quando vai falar sobre sua carreira, como por exemplo no post que fez sobre a aposentadoria, você coloca o escudo do clube, já postou também uma foto de seus tempos jogando aqui. Então, você se lembra com apreço do time, né?

FP: Sim! É como eu falei, foi onde eu comecei na verdade como profissional. De repente, se eu não tivesse a oportunidade de ter jogado na Francana e amadurecer, eu não chegaria no Vila Nova, não teria chegado no Coritiba, no Vasco, no Palmeiras... enfim. Eu penso que todos os clubes são importantes. Eu sou resultado de toda a minha carreira. É claro que têm os momentos de maior visibilidade, que a gente fala, né? Mas, em termos de importância, da minha construção profissional, todos os times foram muito importantes.

LF: E a Francana chegou a te dar uma camisa de presente, lá em 2016. Você acabou a levando para o museu que o seu pai tem em Santa Catarina. Você guarda ela com carinho até hoje lá?

FP: Tem lá! Eu tenho uma aqui em casa, que é a camisa que eu jogava mesmo na Francana, e essa camisa nova que o pessoal do clube, na época, me mandou para que eu colocasse no restaurante do meu pai.


   Pai de Prass tem um acervo sobre o filho em seu restaurante,
   localizado em Guarda do Embaú - SC


LF: Prass, após a sua saída da Francana você foi para o Vila Nova, levado pelo técnico Sérgio Ramírez. Antes, você chegou a ter alguma proposta para ficar jogando em Franca? Você teve a oportunidade de ficar no clube?

FP: Não, porque o calendário era bem reduzido. Você jogava a série A2 do Paulista e depois praticamente não tinha mais jogo. Além disso, a Francana estava passando por um momento muito difícil. Na época, eu fiquei aí quase seis meses, mas só recebi um mês e meio de salário. Também era uma questão econômica complicada para mim, com 21 anos.

LF: Depois, você saiu e todo mundo sabe o que aconteceu. Se tornou um jogador muito reconhecido e ídolo de várias equipes. E como é o carinho das torcidas com você? Já recebeu alguma mensagem de alguém de Franca dizendo que lembra da sua passagem por aqui?

FP: Cara, nas redes sociais a gente tem muito esse contato. Além disso, em 2017 ou 2018, não me lembro com exatidão, nós estávamos em Atibaia, fazendo a preparação para uma partida, e eu encontrei um rapaz que se identificou como presidente da Francana. Me disse que estava fazendo uma reestruturação do clube e que teriam negociado a sede com um supermercado... estava tentando reorganizar a Francana. Nas redes sociais mesmo, é óbvio, o torcedor, especialmente quando eu posto alguma coisa da Francana, sempre vai nas publicações e me trata com muito carinho.

LF: E, Fernando, agora sobre uma visão geral, você é símbolo de ajudar os times a se reerguerem. No Vasco, você ajudou o clube a voltar para a elite do Campeonato Brasileiro e voltar a ser campeão com a Copa do Brasil. No Palmeiras, você a mesma coisa. Topou sair do auge no Vasco para ir jogar a série B e ajudar o clube a se reestruturar. Como você avalia tudo isso que aconteceu na sua carreira?

FP: Bom, ser jogador profissional já é muito difícil. É uma pequena parcela que consegue. Ser jogador profissional em times como os que eu joguei, é mais difícil ainda. Agora, ser campeão nesses times, é realmente para poucos. Na verdade, eu gosto desse perfil de participar da reconstrução do clube, de chegar em um time que está passando por dificuldades e, depois, viver os momentos bons. Acho que tudo isso valoriza mais a história que você tem dentro do clube.

Assista: