Um vídeo publicado nessa terça-feira, 9, nas redes sociais da dentista Mariana Lima, provocou grande comoção em Franca. Em sua publicação, ela se emociona ao desabafar sobre o drama vivido por sua mãe, Ieda Montanhini Alves de Lima, de 50 anos, que lida com um câncer há mais de três anos, e se queixa da forma com a qual o convênio do Grupo São Francisco, que comanda o Hospital Regional e é gerido pela empresa Hapvida, tem tratado o caso.
A família, conveniada ao plano de saúde há décadas, acusa o Regional de múltiplas irregularidades, desde descumprimento do contrato até a recusa em obedecer a prazos e determinações judiciais.
A doença
O drama teve início no final de 2017, quando Ieda descobriu, durante uma consulta de rotina, que tinha câncer no ovário. Nos primeiros meses, o convênio tratou o caso com atenção e cuidado. “Até então, eu não tinha do que reclamar. Fui à consulta, fiz a biópsia, que constatou que o tumor já estava muito avançado, e precisei fazer cirurgia. Além disso, fiz quimioterapia”, explica Ieda.
“No meio do processo, tive algumas intercorrências. Tenho uma mutação genética, o que faz o meu próprio organismo produzir essa célula cancerígena. Na sétima sessão da quimio, eu tive alergia ao remédio, passei muito mal e a gente teve de mudar o protocolo. Em vez de fazer o tratamento por quatro meses, precisei fazer durante oito, o que durou até agosto de 2018. Graças a Deus, sarei e fiquei um período boa”, contou a mãe dos irmãos Mariana e Gabriel.
Em agosto de 2019, exatamente um ano depois de Ieda melhorar, ela descobriu, em um novo exame rotineiro, que o câncer havia voltado. Foi aí que o convênio teria começado a dificultar as coisas. “Devido ao número de quimioterapias que eu já havia feito, precisava colocar um cateter. As minhas veias já não estavam aguentando mais. Aí, ficou difícil. O convênio aprovava a quimio, mas não a colocação do cateter. E eu também não podia fazer o tratamento, porque eu precisaria esperar um mês para fazer a cirurgia.”
Foram quase dois meses de luta até que a mulher conseguisse a aprovação. Foram então mais três meses de quimioterapia. Foi um alívio para todos, mas a angústia, depois da recidiva, havia aumentado. A família começou a se consultar com alguns médicos de outras cidades, em busca de novos medicamentos e recursos terapêuticos. “A gente descobriu que uma medicação, chamada Olaparibe, era indicada exatamente para casos iguais ao dela”, disse o filho Gabriel.
A 1ª batalha por tratamento
Foi então que a etapa mais difícil da luta por um tratamento digno teria início. “Foi muito difícil de conseguir a receita. Todo mundo falava que eu tinha que tomar o medicamento, mas ninguém o indicava e o convênio não pagava. Precisei ir para Ribeirão Preto, pagar consulta, fazer exames mais precisos e nada disso eles cobriram. Tivemos que acionar um advogado. Eu precisava daquele remédio. Era caso de vida ou morte e eu não conseguia”, conta Ieda, emocionada.
Um advogado contratado pela família entrou com uma ação na Justiça e conseguiu uma tutela de urgência. Mesmo assim, o plano de saúde não cumpriu imediatamente a determinação judicial. “Eles simplesmente descumpriram. Era para terem me dado o remédio em 48 horas, mas eu só o consegui no dia 22 de maio de 2020, meses depois. Ali, já não adiantava mais eu tomar. A doença tinha voltado. O que eu tive que fazer? Quimioterapia de novo”, lamenta Ieda.
Ieda, totalmente debilitada física e emocionalmente, recomeçou o tratamento em junho. Mas, logo em uma das primeiras sessões, seu corpo não reagiu bem. “Foi muito forte e eu fiquei bem fraca. Precisei ficar tomando soro vários dias. Quando fui fazer a segunda sessão, já em julho, tive uma surpresa muito triste”, lembra. “Na primeira vez que eu fiz quimio, em 2018, foi com a Cisplatina e o Taxol. Porém, como ele é um medicamento muito forte e eu o usei por um templo prolongado, não pude utilizar de novo. Na segunda vez, ao final de 2019, fiz com a Cisplatina e Gemcitabina. Deu resultado. Na terceira vez, essa em 2020, meu organismo já estava saturado e deu uma alergia muito forte. Passei muito mal e precisei suspender a quimio. Quase morri.”
Um médico afirmou a Ieda que ela não poderia dar prosseguimento ao tratamento e que os protocolos teriam de ser mudados. Ao se consultar novamente com um profissional de Ribeirão Preto, Ieda começou a tomar o Olaparibe, que foi conseguido após a confusão com o convênio na primeira metade de 2020.
“Ele é indicado nos casos em que a doença está em remissão. Mas, como eu já tinha feito duas quimioterapias, comecei a tomar. Isso em julho. Tive uma resposta muito boa. Meu organismo respondeu bem. Comecei a ter uma vida de novo. Em setembro, eu estava com a doença em remissão. Até então, o plano estava dando o remédio. Porém, se eles já tivessem feito isso lá em janeiro, quando teve a medida cautelar, possivelmente eu não estaria passando pelo que acontece hoje. Talvez eu não tivesse que ter feito a quimio pela terceira vez”, disse Ieda.
O filho dela, Gabriel Lima, que também é profissional de saúde, afirmou que as situações pelas quais a mãe passou acabaram a desgastando em todos os sentidos, o que contribuiu para a piora seu quadro.
“A biologia é imprevisível. A gente que atua na área sabe que nada é completamente certo. Entretanto, o desgaste físico, emocional e psicológico dela com certeza afetou. Se o medicamento tivesse sido dado na época que solicitamos, as coisas não teriam acontecido da mesma forma. Podia ter evitado a terceira vez fazendo quimioterapia, que foi quase uma bomba de medicação, para depois tudo baixar e ela usar o Olaparibe”, afirma.
A melhora de Ieda durou poucos meses. Em dezembro do ano passado, ela voltou a enfrentar problemas com a doença. “Eu comecei a sentir dores de novo. Fiz os exames de rotina e, agora, em janeiro de 2021, eles começaram a mostrar alteração. Já que o remédio não estava mais fazendo o efeito necessário, decidimos mudar o tratamento e iniciar novamente a quimioterapia. Eu dei entrada nos pedidos para realizar as sessões e imaginei que dessa vez seria mais tranquilo. Estavam até pagando o remédio de alto custo depois de tanto esforço... Pensei que conseguir as quimios, que eu já fiz tantas vezes, seria fácil.” Ela estava enganada.
A 2ª e atual batalha por tratamento
Precisando aguentar as dores desesperadoras causadas pelo câncer, que teve início em seus ovários e no útero, mas se espalhou por todo o peritônio, Ieda diz que ainda tem de lidar com a demora e falta de atenção do convênio. Os pedidos para voltar a se tratar com quimioterapia, feitos na metade de fevereiro, não tinham sido aceitos até a última terça-feira.
“Eu dei entrada com os papéis da quimio no dia 15 de fevereiro. Pela lei, sou obrigada a esperar 10 dias úteis para que eles analisem o pedido, o que já é um absurdo, mas é o protocolo. Nós esperamos. Passado o prazo, o pedido ainda estava em análise. Você liga no 0800 e é a única coisa que dizem: ‘Está em análise’. Aí começa o erro. Um dia depois do período expirar, nós fomos na ouvidoria e reclamamos. A moça ligou para um, ligou para o outro e, por fim, eles negaram. Eu pedi que documentassem por escrito essa negativa e me explicassem o motivo.”
Quando a justificativa chegou até a família de Ieda, a revolta aumentou. A causa seria a medicação. “Os medicamentos são de uso off label, ou seja, não tem prescrição em bula que aconselhe a indicação deles. Só que não fui eu quem receitei. Foi o médico. Eu apenas levei a receita feita por ele. Fiquei muito revoltada. Fora isso, pelos termos utilizados nesse e-mail, dá a impressão de que ele é até mesmo contraditório. No mesmo momento em que dizem que não tem indicação de usar o Avastin com Doxopeg, também mostram uma (indicação) embaixo. É incoerente.”
Ela levou a resposta dada pelo plano de saúde para o seu oncologista, que afirmou que a medicação pode ser utilizada em seu caso e grifou os termos que justificam isso no próprio documento. A família voltou a tentar falar com a ouvidoria do convênio, mas a resposta foi negativa. “Infelizmente, só podemos pedir para que eles reanalisem o pedido.”
Até terça-feira, nada mais foi feito. As incessantes ligações da família, algumas durando mais de horas, não apressaram uma decisão dos administradores do São Francisco. A frase “em análise” persistiu como resposta.
A mulher afirma que não está mais suportando as dores causadas pela doença. “Os efeitos colaterais são muitos. Eu estou tendo diversos problemas. Sinto como se a minha barriga fosse estourar a qualquer momento. Estou cada vez pior. Se acontecer algo comigo, quem será o responsável? É só mais uma pessoa que vai embora? É um descaso total com a vida. Você é só um número. Mais nada. O que mais me chateia é que a gente não escolhe ter a doença. Se dependesse de mim, ninguém nunca passaria por isso.”
Na sexta-feira passada, dia 5 de março, Ieda precisou passar por uma drenagem que retirou cerca de 1,5 litro de líquido da região de seu peritônio. Inconformada, a filha Mariana Lima afirma que a situação à qual sua mãe foi submetida não é justa.
“Eles judiam de todo mundo, até dos médicos. Tem muita burocracia. Para fazer esse procedimento, que é de urgência, nós precisamos ficar lá cerca de seis horas. É muito difícil, muito desgastante ter que ficar fazendo essas manobras que nem são as corretas no momento. O que minha mãe precisa fazer de verdade, que é a quimioterapia, eles não aprovam. É muito revoltante. A gente nem queria se expor tanto igual aconteceu, mas eu já não aguentava mais ver ela sofrendo. Ficar esperando uma ligação que nunca acontece”, disse Mariana.
“Quando a pessoa tem câncer, o emocional é muito importante. Essa angústia que eles geram é absurda de tão prejudicial, não só para o paciente, mas também para a família. Nós estamos de mãos atadas (...) Parece que eles querem que a doença progrida e o paciente vá a óbito para parar de dar custo. Eu não tenho palavras mais para descrever”, disse a filha.
O irmão Gabriel também critica as condutas adotadas pelo plano de saúde. “A quimioterapia, de acordo com os parâmetros da ANS (Agência Nacional de Saúde), é obrigatória em todos os convênios. Não têm o direito de negar. Eles estão descumprindo coisas em cima de coisas e a multa não parece ser nada. Parece que o que querem mesmo é tempo. Sabem que esse é o nosso maior inimigo.”
Segundo Mariana, o convênio proibiu até que os seus profissionais passassem um orçamento do tratamento para a família. “O meu advogado me pediu para ir em um oncologista e pegar uma estimativa do valor, para ver se a gente conseguia a apreensão da quantia. Mas, nem isso eles podem me passar. Eu só quero a quimioterapia da minha mãe. Eu não quero ‘auê’, nada demais. Só o tratamento para ela”, disse, emocionada.
A resposta do convênio
Após a publicação com o vídeo de Mariana bater mais de 110 mil visualizações no Instagram, o São Francisco entrou em contato com a família e aprovou a primeira das seis sessões de quimioterapia que Ieda Lima precisa fazer.
A reportagem do GCN também havia procurado o plano de saúde para que registrassem sua versão sobre os fatos. Em um primeiro momento, a única posição do convênio foi uma ligação para dizer que “tudo foi resolvido”.
Às 20h desta quinta-feira, 11, o São Francisco divulgou uma nota para a imprensa afirmando que “está em contato com a família para a resolução das questões apontadas e segue acompanhando de perto o caso, que teve a primeira sessão de quimioterapia realizada” ainda ontem.