10 de julho de 2026
NOVAS PERSPECTIVAS

Doses de esperança: profissionais de saúde relatam expectativas após vacinação

Por Lucas Faleiros | da Redação
| Tempo de leitura: 7 min
Arquivo Pessoal
Profissionais de saúde de Franca já recebem segunda dose

Provocar no organismo humano uma reação que desencadeie a imunidade contra o coronavírus causador da covid-19 não tem sido a única função das vacinas distribuídas em Franca e em todo o Brasil. Para os profissionais de saúde, público mais exigido desde o início da pandemia e que recebeu máxima prioridade na imunização, as doses são de suma importância não só para o sistema imunológico.

Ao serem vacinados, médicos, enfermeiros, técnicos e demais trabalhadores que fazem parte do processo de atendimento a pacientes todos os dias e de maneira incansável acabam ficando mais do que “somente” livres de contrair as formas mais graves da doença. Eles se tornam aptos a transmitir algo muito mais poderoso do que o coronavírus: o sentimento de esperança.

“Doses de esperança.” Exatamente esse é o significado da vacinação para a fisioterapeuta Thalita Silva de Oliveira, que garante que jamais vai esquecer o dia em que recebeu a primeira dose da vacina contra a covid-19.



“Fui vacinada no dia 4 de fevereiro, com a vacina da AstraZeneca/Oxford, e com certeza essa data será lembrada por mim durante toda a vida. Ser imunizada em meio a tantas incertezas me fez enxergar uma luz no fim do túnel. Foi muito gratificante. Antes era insegurança a todo atendimento. Mesmo tomando cuidado, o medo de me contaminar e acabar contaminando meus familiares era muito grande. Agora, me sinto mais segura. É um grande alívio”, confessou.

Mesmo livre do coronavírus, a profissional afirma que não vai deixar de seguir os protocolos sanitários. “É muito importante ressaltar que, mesmo com a vacinação, é extremamente necessário manter a prevenção. O uso de máscaras e a higienização são indispensáveis no combate à pandemia.”

O enfermeiro Paulo César Silva, que já tomou as duas doses da Coronavac, também se sentiu aliviado ao ser vacinado. Ele relata que, no início da pandemia, o desespero aumentou conforme constatava a destruição causada pelo coronavírus em outros lugares do Brasil.



“Tenho muitos amigos enfermeiros em São Paulo, onde o surto se espalhou primeiro. Conforme eles me contavam as coisas, eu ia me sentindo mais inseguro. Foi devastador. Eram muitos óbitos de profissionais de saúde e eu ficava com medo de me contaminar e acabar transmitindo a doença para familiares e amigos, em especial minha mãe, de 88 anos. Só ficava um pouco mais tranquilo quando chegava em casa, tirava toda a roupa do trabalho na garagem e ia para o banho.”

Ele ainda relata o drama de vivenciar e participar da linha de frente durante o caos. “Nossas equipes chegavam a fazer 10 intubações endotraqueais por dia, sendo que, antes da pandemia, fazíamos esse número de procedimentos em 6 meses. Foi e ainda é muito desgastante.”

Para o enfermeiro, a chegada das vacinas proporciona um misto de sentimentos bons. Apesar disso, ele também faz questão de ressaltar a continuidade dos cuidados. “Nos deixa, sim, esperançosos. É aliviador. Podemos até começar a pensar em dias melhores. Mas, não posso deixar de dizer: mesmo vacinados, não podemos deixar os protocolos de lado. É bom lembrar que existem variantes circulando por toda a região.”

Ainda que não participando dos processos de intubação e atendimento de pacientes confirmados ou com suspeitas de covid-19, outras áreas da saúde também se viram ameaçadas pelo coronavírus. É o que garante o dentista Gabriel Lima.

“Os profissionais da odontologia se sentiram muito inseguros. Ficamos muito vulneráveis. Nós trabalhamos com aerossol e as partículas que são suspensas no ar, vindas do paciente, podem estar infectadas com o vírus. Mesmo de máscara, há a possibilidade de respirarmos essas partículas e acabarmos nos contaminando”, comentou.



Vacinado com a primeira dose da AstraZeneca, Gabriel até teve leves reações alérgicas, mas nada que tire a sua segurança. “Me deu um pouco de febre, mas foi uma exceção mesmo. Meu pai e minha irmã foram vacinados praticamente juntos comigo, do mesmo lote, e não tiveram nada. Outros conhecidos meus da área também tomaram e nenhum teve nada. Imunizados, nós nos sentimos mais seguros. Melhora o psicológico para trabalhar e a expectativa vai lá em cima.”

Quem também comenta ter sentido muita insegurança para trabalhar na odontologia é a dentista Maria de Pádua Fernandes, que foi infectada pelo coronavírus. “Até por ter tanto contato com a saliva e o aerossol, alguns estudos nos colocavam como o grupo mais exposto ao vírus dentre os profissionais de saúde. Sofremos bastante. Eu, inclusive, peguei covid-19. Mesmo tendo seguido todos os protocolos de segurança, acredito ter contraído a doença enquanto atendia.”



Maria revela que, assim como todos os seus colegas, teve medo de transmitir o coronavírus e que se emocionou muito ao ser vacinada. “Quando fui contaminada, a minha maior preocupação passou a ser não transmitir. Foi algo bem pesado. Quando fui vacinada, eu até chorei. A vacina trouxe uma esperança, uma sensação de que as coisas estão começando a melhorar. Ela é uma proteção não só para quem é vacinado, mas para quem vai interagir com essas pessoas, no nosso caso, os pacientes.”

A nutricionista Isabela Borges, assim como o dentista Gabriel Lima, sentiu algumas reações após a aplicação da primeira dose da AstraZeneca, mas afirma que elas vieram acompanhadas de ótimas sensações.



“Tive alguns sintomas bem parecidos com os da covid-19. Porém, conforme o orientado, é normal. Mesmo com as reações e as horas na fila de espera, sinto que fiz a melhor escolha, que salvei a minha vida e a vida dos que eu amo. Me senti muito aliviada e tranquila. Sigo, agora, ansiosa por minha segunda dose e mais ansiosa ainda para que todo o nosso país se vacine logo para que tenhamos dias melhores”, contou.

Lais Bijos, que trabalha como farmacêutica há 11 anos e atua em um lar de idosos francano, também sentiu um alívio ao ser imunizada. “Tomei as duas doses e o sentimento é de dever cumprido. Para nós, profissionais de saúde, essa vacina é de total importância e representa muita esperança. E foi ainda mais significativo para mim, porque trabalho em contato com muitos idosos do grupo de risco, que estão sem sair nem receber visitas já há quase um ano. É uma proteção a mais não só para mim, mas para todos eles.”



Para alguns, só o ato em si de ser vacinado já foi especial, mas para Maria Ângela Rios Gregório, de 61 anos e que trabalha como enfermeira há mais de 40, o momento foi ainda mais marcante. Ela foi a primeira pessoa a ser vacinada na cidade de Cristais Paulista, vizinha de Franca, e hoje é quem aplica as doses nas demais pessoas.



“Eu recebi a primeira dose da vacina no dia 21 de janeiro e a segunda nesta quinta-feira, 18. Fui a primeira a ser vacinada aqui e, hoje, trabalhando na sala de vacina de Cristais, sou eu quem aplico as doses nos contemplados. Me sinto muito bem agora e tenho esperança de que essas vacinas mudem as nossas vidas para melhor.”

A instrumentadora cirúrgica Aline Moreno da Silva também foi imunizada e diz estar se sentindo mais segura agora. “Eu tomei a vacina na segunda leva dos profissionais de saúde, já que não trabalho exatamente na linha de frente. Ainda assim, exercendo a minha função, lido diretamente com os pacientes, logo, tem um risco bem grande de contaminação. Depois de ser imunizada, me sinto bem mais protegida. A primeira dose foi brava (risos). Eu tive várias reações e parecia até que estava com a covid-19. Mas, isso quer dizer que funcionou. A nossa esperança foi alimentada.”



Apesar de a grande solução para atenuar os efeitos da pandemia ser a imunização, a notícia de que vacinas estariam sendo desenvolvidas não tranquilizou a todos os trabalhadores da saúde logo de início. A estudante de fisioterapia Bianca dos Santos Moraes, que atende pacientes na clínica da universidade onde estuda, relata que, a princípio, ficou receosa quando foi informada da possibilidade da vacinação.

“Quando fiquei sabendo que haveria uma vacina, os primeiros sentimentos foram de desconfiança. Mas, com os estudos e a comprovação científica da eficácia dos imunizantes, não tive nenhuma dúvida de que seria algo benéfico. Era o que todas as pessoas que atuam na área da saúde desejavam. Porém, mesmo vacinados, precisamos continuar atentos. A população só estará segura quando a maioria ou todo mundo estiver imunizado”, disse.