Sem folia, sem os foliões e sem a comunal alegria vista nas avenidas e bloquinhos promovidos por moradores nestes dias de festa: assim amanheceu Franca nesta terça-feira, 16. Pela primeira vez em várias décadas, o silêncio é quem reina no Carnaval da cidade.
Na Passarela do Samba "José Renato Rosa", espaço entre as avenidas Chico Júlio e Dr. Flávio Rocha onde acontecem – em anos normais - os desfiles das escolas de samba francanas, a única movimentação era de algumas poucas pessoas fazendo caminhada. O local que naquele momento deveria estar se preparando para o "fervo", vivia uma calmaria quase que ensurdecedora.
Essa ausência dos foliões agrada a algumas pessoas e desagrada outras. Para Eulino Antônio Borges, proprietário de um depósito de bebidas localizado na avenida Chico Júlio, o que faz falta não é exatamente a diversão promovida por eles, mas sim a sua presença.
"Eu não sou tão fã assim da folia do Carnaval. Nunca fui muito de participar. Mas, não posso negar que estão fazendo falta. Ainda mais agora, que mudamos o segmento do nosso negócio, passando a investir na venda de bebidas. Se estivessem acontecendo os desfiles e tudo estivesse normal, o fluxo de clientes melhoraria. Venderíamos bem mais”, comentou.
Zilda Aparecida, de 72 anos de idade, mora em frente à Passarela do Samba. Ela conta que, apesar de gostar dos desfiles, não concorda com algumas coisas que acontecem neles e chega a sentir uma paz com a ausência da festança.
“Eu até gosto quando tem a festa. Acho bonito e tudo mais. O problema é que vira uma bagunça muito grande. O povo vem pra cá, arruma briga, faz uma barulheira danada... Se fosse tudo bem arrumadinho, ainda, tudo bem. Mas não é. Então, nem sinto tanta saudade. Se for ver, é até bom que não tenha mesmo. Digo isso pensando em alguns vizinhos nossos que são doentes e têm vários problemas”, disse.
Saudade dos blocos
Outro lugar que se via entregue a uma rotina totalmente diferente da do Carnaval deste ano eram as proximidades da rua Dr. Júlio Cardoso, por onde tradicionalmente passava o bloco Cangoma. O grupo se reunia na praça em frente à Padaria Estrela e descia a rua rumo ao Centro da cidade. Nesta terça-feira, nada além do movimento comercial comum em um mero dia de fase vermelha era visto naquela região. A folia do Carnaval não aconteceu.
A ausência desses bloquinhos festivos e das tradicionais reuniões de foliões é responsável, inclusive, por muita saudade no coração de alguns francanos. Maria Carolina Gomes, de 19 anos, é uma das pessoas que têm sentido falta daquela bagunça. “O que mais sinto saudade desta época é, sem dúvida nenhuma, ver a alegria exposta no rosto de todo mundo. Fora isso, é quando a gente tem liberdade para sair de casa vestidos como quisermos para irmos para a folia.”
Para Breno Borges, de 18 anos, também só restou relembrar os últimos anos e esperar o próximo Carnaval, data pela qual ele tem uma grande consideração. “É muito especial para mim. E não é só pela bagunça. É nesses dias que você consegue se reunir com amigos, alguns que você já não via faz tempo, outros que você vê todos os dias, e curtir, zoar, beber. O Carnaval está na essência do brasileiro. Quando você pensa no Brasil, ele é uma das primeiras coisas que vêm à cabeça. Vivemos um momento muito triste. Esperamos o ano inteiro por essa festa e, infelizmente, ela não pôde acontecer.”