Os textos da tradutora Bérengère Viannot são encontrados nos mais importantes jornais do seu país, a França. Especialista em discursos de políticos, a linguista por formação se tornou referência nessa área difícil, pois como disse em entrevista “tradutores de mídia são como coletores de lixo; as pessoas só se dão conta de que eles existem quando deixam de fazer a sua tarefa”. De fato é trabalho essencial e exigente, pois o profissional deve ler, refletir e escrever, simultaneamente, respeitando à risca a mensagem do autor.
Apesar do peso da responsabilidade, tudo corria bem para Viennot até que Trump foi eleito em 2016. Sua linguagem vulgar e sarcástica, de vocabulário paupérrimo e à vezes obsceno, impôs obstáculos ao trabalho da tradutora. Por outro lado, instigou as reflexões que estão em “A Língua de Trump”, livro publicado originalmente em 2019, editado em diversos países e disponibilizado aos falantes do português pela editora Âyiné pouco antes das eleições que definiram Joe Biden como o novo presidente dos EUA. Certamente ganhou mais leitores após o ataque ao Capitólio que custou a Trump o segundo pedido de impeachment. .
A linguista/tradutora nos relembra que tão logo assumiu, o republicano implodiu o código do discurso político vigente desde que George Washington proclamou a República em 1789. Suas mensagens improvisadas no Twitter, marcadas numa clave de sintaxe atrapalhada, frases sem pé nem cabeça, léxico raso com frequência substituído por emojis e códigos não verbais, rapidamente deram mostra de que os americanos tinham eleito um presidente completamente fora dos padrões linguísticos daqueles que até então haviam ocupado o lugar de honra na Casa Branca.
Pesquisando centenas de tuitadas, entrevistas e declarações, Viannot chegou à conclusão de que o modo cru de Trump escancarava não só ruptura com o sistema como também desvelava a violência de sua visão política. Aproveitando-se da brevidade do Twitter,ele podia expressar à vontade suas ideias sem nenhum filtro ou subtexto. Repetindo palavras vazias para não explicar acontecimentos graves, estimulando o negacionismo no começo da pandemia, escolhendo vocabulário brutal pontuado por ofensas de ordem racial, sexista e misógina, parecia descolar-se da realidade para viver num mundo onde bastaria expressar suas intenções para que elas se tomassem fato. Sendo seu próprio referente, desqualificava todos os dias informações factuais da mídia, tratada como inimiga.Deu no que se sabe: está saindo da presidência do pior jeito.
Uma coisa interessante sobre a língua de Trump é sua proximidade com a do presidente brasileiro que sabotou todas as orientações científicas para evitar a tragédia sanitária que atinge o país, dinamitou ações que visavam à proteção da natureza, colocou em áreas sensíveis pessoas que enfatizavam o racismo em lugar de lutar contra ele e estimulou ao máximo a polarização de uma sociedade que só tem a perder com isso. O estraçalhamento da língua reflete o do pensamento, dizia no já longínquo 1970 o semiólogo Roland Barthes.
Caracterizado pela ironia típica dos intelectuais franceses, a escrita cortante de Viennot desperta questionamentos a respeito da influência maligna de Trump entre extremistas de direita que reproduzem a mesma forma discursiva para ganhar popularidade e manter o poder a qualquer preço. Também soa como alerta para as consequências malévolas que daí podem advir aos sistemas democráticos.