09 de julho de 2026
FRANCA 196 ANOS - SETE DESAFIOS

Buracos atormentam, causam prejuízos e matam em Franca

Por Lucas Faleiros | da Redação
| Tempo de leitura: 6 min
Arquivo/GCN
Buracos em trecho da Rua Manuel de Freitas, no Jardim Petraglia

Um problema “crônico” em Franca vem aumentando de dimensão ano após ano: a buraqueira nas ruas e avenidas da cidade. É trabalhoso encontrar uma rua em Franca que não esteja “ferida” ou tão remendada a ponto de serem formados diversos desníveis.

As crateras vistas em nossas ruas, no entanto, não criam somente um incômodo ou danos materiais aos motoristas. Elas também são responsáveis por ocasionar acidentes que, por vezes, acabam em tragédia.

E esse foi o caso de Lucimar Barbosa, 52, que, na véspera do Natal do ano passado, saiu de sua casa rumo a uma clínica onde se consultaria com sua psicóloga e não voltou mais.

Isso ocorreu porque, ao passar com sua moto pela rua Angélica Gomes Faleiros, na Esplanada Primo Meneghetti I, tentou desviar de um buraco e caiu.

Com a queda, ela bateu muito forte com a cabeça no solo e teve traumatismo craniano. Lucimar foi socorrida, ficou mais de um mês internada, recebeu alta e, no dia 31 de janeiro de 2020, morreu.

Sua afilhada Andrea Cristina dos Santos não considera que o acontecimento tenha sido apenas uma fatalidade, mas sim um crime. “Penso que ela foi assassinada. Se aquele buraco, que poderia ter sido tampado, não estivesse lá, nada daquilo teria acontecido. A culpa é do governo. Hoje, é a minha família que chora, que sofre. Nós não tivemos nenhum respaldo da Prefeitura.”

A moça conta que aqueles dias próximos ao do acidente eram para ter sido de festa, mas acabaram se tornando um calvário. “O nosso Natal foi no hospital. Foi um verdadeiro filme de terror. Ficamos durante 32 dias no São Joaquim, acompanhando o tratamento. Foram 25 dias na UTI. Eu, minha prima e os irmãos da Lucimar sempre ficávamos lá. Ela nunca estava sozinha. Foi muito difícil ver quem ajudava tanta gente precisando ser tão ajudada. Foi muito triste também, porque ela não saiu do coma.”

A alta hospitalar, que em tantos casos é fortemente comemorada pelas famílias dos pacientes, no caso de Lucimar, foi desesperadora. “Os médicos disseram que iríamos precisar montar uma mini-UTI em casa. Nosso mundo desmoronou. Com ajuda da Igreja Capelinha e muito esforço, conseguimos os objetos. A Prefeitura não ajudou em nada. Na semana da alta, o hospital convocou a família para uma reunião. Nela, os médicos explicaram o que a gente tinha que fazer para cuidar dela. Seria cômico, se não fosse trágico: em algumas horas, ensinar a família a fazer coisas que eles estudam por anos. Tudo o que queriam era dar a alta.”

A afilhada contou como foram os últimos dias de sua madrinha. “Trouxemos ela para casa e cuidamos com o maior carinho do mundo. Eu fiquei com ela na quinta-feira, pois no outro dia era o meu aniversário e algum amigo poderia à minha casa para me dar um abraço. Eu imaginava que aquele dia seria feliz e mantinha fé que ela sairia daquela situação. Por ironia, minha madrinha morreu bem no dia do meu aniversário. Ela ainda tentou falar comigo antes, mas pouco conseguia dizer, por conta do seu estado. Assim foram os 37 dias mais sofridos de uma família que, por culpa de um buraco, perdeu uma pessoa tão amada.”

 

A raiz do problema

O engenheiro de tráfego Fernando Velásquez acredita que o maior problema envolvido na buraqueira que toma conta das vias de Franca seja a falta de planejamento.

“A cidade tem tanto buraco, porque o solo simplesmente não aguenta. Essa é uma realidade de muitos municípios e pode ser explicada de várias maneiras. Para haver uma qualidade boa de asfalto, precisam ser feitas várias etapas no planejamento, que por vezes são ignoradas. Não é só tacar pavimento”, afirma.

Segundo ele, primeiro, é necessário estudar o solo do local. “Se ele apresentar alguma instabilidade, precisa ser tratado. Isso é feito principalmente com processos de compactação, que deixam o terreno o mais compacto possível, assim aguentando a carga. Quando se formam os buracos, há um afundamento do solo, por mais que a gente não consiga ver. Isso indica que ele foi mal preparado”, avalia Fernando.

O profissional também diz que a forma com a qual é feita a pavimentação da rua é importante e que os trabalhos de tapa-buraco não são boas medidas de correção. “Em cima do solo, eles colocam uma camada muito fina de asfalto, que geralmente tem até 5 centímetros. Somado a isso, a qualidade do material utilizado pelas cidades, normalmente, é baixa e a aplicação feita de maneira errada. Muitas vezes, o asfalto nem termina de compactar e o tráfego é liberado”, conta.

O engenheiro diz que a manutenção que deveria ser feita é, quando um trecho tem muitos buracos, retirar a camada de asfalto, averiguar a situação do solo, fazer a compactação, adicionar quantidades de pedra e, aí sim, reinstalar o asfalto. “Essa é uma medida corretiva, e não paliativa”, afirma Velásquez

O especialista em solos Thales Jati Gilberto, que é engenheiro civil e professor do Uni-Facef, afirma que o terreno de Franca, apesar de complexo, não deveria comprometer a instalação de um asfalto de boa qualidade.

“De maneira geral, o solo da cidade é arenoso. Porém, isso não impede que as ruas tenham uma boa pavimentação. No projeto, o engenheiro tem de levar em conta todos os solos da região para planejar esse asfalto. Se isso for bem feito, não haverá problemas.”

Para ele, a culpa nunca será do terreno. “Até mesmo quando as condições dele são muito ruins, há formas de planejar um bom asfalto. É possível realizar a o tratamento deste solo ou até mesmo a sua substituição”, conta Thales.

Sobre os buracos, o engenheiro também afirma que as operações de tapa-buraco não fazem milagre. “O que precisa ser feito é a manutenção periódica das vias existentes e a indicação dos locais em que a vida útil do pavimento acabou. Neles, o tapa-buraco não terá nenhum efeito mais. O asfalto tem de ser recapeado ou substituído.”

 

Sem solução?

Gilmar Dominici, que foi prefeito de Franca entre os anos de 1997 e 2004, diz que sofreu e enfrentou muitas dificuldades por conta da buraqueira. Segundo ele, os administradores enfrentam um dilema complicado quando o assunto é o asfalto.

“Franca tem um solo de baixa compactação, uma malha urbana muito grande e topografia acidentada. Tudo isso, exige gastos ainda maiores. Quando fui prefeito, fiz junto à minha equipe os trabalhos de tapa-buraco e alguns pequenos recapeamentos”, disse ele, explicando que priorizou asfaltar alguns bairros que ainda não tinham pavimentação. “Eram 18 bairros sem asfalto. Pavimentamos 15.”

Gilmar crê que nenhum político irá conseguir corrigir o problema no asfalto de Franca nos próximos anos. “A não ser que surja um recurso novo de grande monta, algo extraordinário, ninguém vai conseguir arrumar a situação. Com a verba que Franca tem, não é fácil de fazer. Isso é coisa de centenas de milhões de reais.”

 

R$ 3 milhões

A Prefeitura de Franca, por meio da secretária de Planejamento Urbano, Adailma Helena, afirma que o problema do asfalto vem de muito tempo e que o governo municipal tem trabalhado com o que consegue.

“É preciso observar que isso trata-se de uma questão histórica, agravada pelas condições desfavoráveis do solo e uma falta de manutenção que vem de décadas. Alguns bairros têm o mesmo asfalto há 30 anos e não recebiam a manutenção necessária.”

Um contrato para recapeamento de algumas vias da cidade está em andamento, ao valor de R$ 3 milhões.

Para a secretária, a única solução plausível é “recapear, a partir de um planejamento prévio, aqueles locais mais críticos, o que, dentro dos limites do orçamento, a Prefeitura fez nesses últimos anos”.

Ela diz ainda que só será possível corrigir boa parte dos problemas de asfalto com o recebimento de “emendas parlamentares do Estado e Governo Federal, pois, apenas com recursos do orçamento próprio, fica difícil fazer frente à demanda”.