08 de julho de 2026

Um tango para Maradona

Por Sonia Machiavelli | Especial para o GCN
| Tempo de leitura: 4 min

Não acompanho futebol, embora até devesse, porque em casa sempre se torceu muito pelo Corinthians. Mas nas Copas visto camiseta alusiva, descolo apito, sento-me defronte da televisão junto com a plateia familiar e torço até às lágrimas. Torço pelo meu país, na verdade; e até dou palpites. É que não é necessário saber muita coisa para compreender uma partida, já que as regras são claras. Qualquer cultura entende que um time deve pelejar para vencer o outro, marcar os gols que lhe darão a vitória ou sofrer os que o que levarão à derrota. Grandes jogadores fazem o possível para levar a bola até o fundo da rede, driblando os oponentes. Maradona fazia o impossível, e o fazia com arte, em movimentos que desafiavam as leis da física, exibiam a criatividade do artista, desvelavam a intensidade das paixões humanas. Como Garrincha, sua dança nos gramados alegrava multidões.

Consulto alguns experts para conhecer a opinião deles sobre as qualidades singulares do jogador que morreu na quarta-feira e manchetou todos os jornais do mundo, numa evidente prova de sua genialidade e do alcance do esporte como linguagem universal. Respondem-me que o argentino se diferenciou por um estilo único, que contrastava com o de grandes nomes que jogavam de forma racional, como robôs programados para percorrer a linha imaginária que poderia levar ao gol ou impedir que os oponentes avançassem na direção oposta. Tinha um talento imenso e diferenciado, até hoje inigualável, para deslocar seu corpo no espaço num bailado que hipnotizava o público nos estádios onde ele se apresentava. Esse desempenho fantástico durou pouco mais de vinte anos, tendo em vista que havia começado aos quinze e encerrou sua carreira no dia 10 de novembro de 2001, no estádio do Bocca Juniors, La Bombonera.

No auge de sua carreira,tendo participado de três Copas, e levado os napolitanos a adotá-lo como seu mais querido filho, conheceu as drogas em Barcelona. A trajetória a partir de então foi repleta de incidentes, desgastes, desgostos , frustrações, divórcios, brigas, angústias, atitudes deploráveis- porque as drogas, segundo suas próprias palavras, tiravam-lhe os sentimentos. Mas quando caía, levantava-se. Lutava contra sua maior inimiga, enquanto declarava cada vez mais seu amor à bola, que o tinha tirado de um meio miserável na periferia de Buenos Aires e o alçara ao patamar de herói internacional que nenhum outro jogador havia alcançado em sua época.

Entrou e saiu de clínicas, engordou e emagreceu, brigou e fez as pazes com amigos que tentavam ajudá-lo, trocou a cocaína pelo álcool. Não aderia a nenhum tratamento. Depois de muitas e inúteis tentativas, aceitou convite de Fidel Castro, a quem dedicava verdadeira devoção, e internou-se numa famosa clínica de desintoxicação em Havana. Não cumpriu o tratamento; ao voltar à Argentina, foi flagrado devorando uma lata inteira daquele maravilhoso doce de leite que só os portenhos são capazes de produzir, mas que lhe tinha sido vetado porque já não era só a droga que deveria enfrentar, mas também a obesidade e os problemas cardíacos.

Entre uma crise e outra, resolveu ser técnico em times sem nenhuma expressão mas que lhe pagavam bem. Não deu certo. Seu talento era dentro de campo; não fora dele, lidando com jogadores complicados e presidentes arrogantes. Caiu fora. Tentou a televisão como apresentador e fez sucesso, chegando a entrevistar Pelé num programa de enorme audiência. Não durou. Parecia que toda sua energia estava umbilicalmente vinculada à bola, a quem agradeceu numa entrevista, quando lhe perguntaram sobre gratidão. De fato, “la pelota” lhe dera tudo, mas ele não soubera administrar a fama.

Nos últimos anos, a decadência se tornava cada vez mais visível. E sua morte, que parecia anunciada, parece ter preparado o espírito dos argentinos para este momento que enfrentam.

Foi impressionante o número de pessoas na fila de vinte quarteirões para lhe dar o último adeus na Casa Rosada. No rosto de todos estampava-se a tristeza, como se tivessem perdido alguém muito próximo, um ente familiar.

É um fenômeno para cuja explicação não basta apenas o talento para a bola; há que se ver nessa gigantesca comoção algo mais que ligava o jogador a seus fãs.Penso que por ser “demasiadamente humano”, como o definiu um articulista, ele tinha muitas mazelas que não fazia questão de esconder. Esse aspecto de sua personalidade tocava o âmago das pessoas, num tipo de identificação com a humanidade de cada uma. Porque seres humanos são assim, têm suas subidas e descidas, mais as zonas acinzentadas nem sempre tocadas por alguma luz.

Nas primeiras horas após a sua morte, antes que a família decidisse enterrar o corpo no cemitério onde jazem os pais, falaram em erguer na Recoleta um túmulo grandioso, porque a cultura argentina cultua a arte funerária. Mas creio que ele gostaria mais é de inspirar um tango na alma de algum Piazzolla. Sua vida foi toda ela um tango, na medida em que sentimos o gênero vigoroso como mescla de paixão, sensualidade, frustração, vitórias e derrotas, agonia e êxtase, violência também.

Jorge Luís Borges, grande nome da literatura universal, afirmou que por suas características únicas, o tango só poderia ter nascido em Buenos Aires. Eu acho que Diego Armando Maradona também.