08 de julho de 2026

Consciência

Por Lúcia Brigagão | Especial para o GCN
| Tempo de leitura: 4 min

A foto está na parede de casa, onde montei galeria para homenagear os ancestrais. Estão ali os representantes do lado paterno vindos da Campania, na Itália e os ancestrais negros brasileiros, parte da família pelo lado materno. A história. Meu avô, Joaquim Junqueira, era filho de Sebastião Junqueira e Clara Junqueira. Ambos filhos naturais de grandes coronéis do século XIX, que tinham filhos legítimos com mulheres de alta estirpe, mas tinham muitos outros, com as escravas de suas fazendas, a quem davam nome e seus heráldicos sobrenomes, reconhecendo-os como filhos. Minha bisavó Clara, segundo o folclore familiar, era filha do Coronel Cornélio Procópio com uma das escravas que possuía.

Contam que era chique, muito bonita e que suas roupas vinham de São Paulo, direto para a fazenda paulista onde morava, que ficava perto de Santa Rita de Passa Quatro. Ela só andava de carro, com motorista, usava luvas, chapéu. Era uma Sinhazinha. Muito bonita e mulata na pele. Meu bisavô, Sebastião Junqueira, tinha praticamente a mesma história de origem. Era filho natural do coronel Junqueira com negra escrava de uma das propriedades da família, e também morava numa fazenda dos Junqueira, perto daquela onde estava Clara. Um dia se encontraram. E se apaixonaram, segundo os tios-avós contavam. Casaram-se e foram morar na fazenda chamada Bebedouro. Lá, moravam numa casa bonita e grande, segundo vovó contava. Comiam em mesa bem posta, com toalha de linho, porcelana francesa, talheres de prata: reprodução fiel da casa dos coronéis, seus pais... Tiveram muitos filhos. Alguns conheci pessoalmente, outros, não. Mas entreouvia seus nomes nas conversas dos adultos, que me fascinavam. Tio Ben-Hur, tia Cença; tio César, tio Cláudio, tia Ophelia, alguns outros e mais meu avó Joaquim. Eram todos considerados “mulatos” nas suas certidões de nascimento – o que fiquei sabendo quando herdei os documentos da família. Meus tios maternos Flávio e Francisco Emílio não sei que classificação cutânea receberam ao nascer, mas minha mãe foi considerada branca, talvez em função dos genes recebidos de vovó Ritinha, branca no seu registro. Curioso, tinha pele bem mais escura, boca cheia, cabelo enrolado.

Na foto, em pé estão César e Ben-Hur. Tio César, o que está à esquerda, era funcionário da Companhia Paulista de Força e Luz, viajava muito. Casado com Cecília morena linda, de olhos verdes, tinha dois filhos, com quem convivi pouco. Ele vinha frequentemente em Franca, nos visitava e contava histórias da família. Tio Ben-Hur vi poucas vezes, mas contavam histórias sobre ele e aprendi a apreciá-lo. Era exímio músico, traço de todos os irmãos. Sentada, no meio, tia Cença, que morava em Santos, tinha uma penca de filhos e a habilidade de falar com espíritos e almas do outro mundo. Na ponta, à direita, tio Cláudio, músico, professor de música, que defendia o “Brasil é nosso”, morava em Franca, na casa de quem íamos aos domingos que minha avó vinha de Uberlândia, para conversar, ouvir música, comer a comida feita por tia Leontina, ajudada por Lázara, sua filha. Numa dessas conversas, ouvi – que menino, mesmo curioso não entrava nas conversas de adultos – que Rafael Luís, primo que morava em Araraquara, formado advogado pela São Francisco, mulato como os pais, descobrira que o bisavô Cornélio Procópio, pai de Clara, deixara para os filhos legítimos as terras paulistas e para os filhos ilegítimos, as terras no Paraná, acredito que as que hoje levam seu nome. Mas que a doação estava prescrita, por abandono e as leis de usucapião. E não se falou mais nisso.

Neste 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, pensei muito no significado da data, na minha miscigenada família, e no orgulho incolor que tenho dela. E cheguei à conclusão de que todo dia é dia de Consciência. Que esse ranço com relação à cor da pele só vai passar quando olharmos uns aos outros e percebermos apenas e sobretudo a cor de nossas almas. Não saberia se é verdade, mas atribuem a Morgan Freeman a frase lapidar “Quando pararmos de nos preocupar com Consciência Negra, Amarela ou Branca e nos preocuparmos com Consciência Humana o racismo desaparece.”

Questionário para você responder e pensar: 1. Quantos amigos negros você teve na sua vida? Com quantos compartilho momentos e história? 2. Quantos amigos negros seus pais deixaram você levar para dormir em sua casa, quando você era criança? 3. Você já se apaixonou por alguém de tonalidade de pele mais escura? 4. Quantos negros frequentaram os mesmo clubes que você? 5. Quantos estudantes negros estiveram nas suas classes de aula? E nas de seus filhos? Pois é.