09 de julho de 2026

Poesia na vida cotidiana

Por Sônia Machiavelli | Especial para o GCN
| Tempo de leitura: 4 min

Estamos vivendo realidade dura e áspera em nosso país, replicando o que acontece em outras regiões do planeta. O entorno pouco fértil para o que é transcendente dificulta muitas vezes a apreensão e a vivência da poesia no nosso dia a dia. Palavras como pólvora desencadeiam vibrações ruins acompanhadas de muito barulho e mau-cheiro. O que não quer dizer que essa retórica estridente e violenta possa matar o poético que resiste em pequenos ou grandes gestos nesse mundão que não é só direita e esquerda, é muito mais. É profundidade e beleza que ora fundam, ora revelam mundos. E resiste muito além da política, das instituições, das vaidades ridículas, da perversa sede de poder.

Há uma tendência em associar o poético a versos, a ponto de chamarmos poema a uma estrutura definida que até os anos 20 do século passado era reconhecida pelas rimas que o Modernismo sepultou. A poesia está entre os primeiros registros de grande parte das culturas letradas, o que comprova que o homem desde sempre se interessou pela palavra com fins estéticos. É nela que o vocábulo se desvincula de seus significados habituais e alcança diferentes acepções, em um jogo inusitado entre significante e significado. Quando elementos subvertem as funções da linguagem, a ela conferem aspectos metafísicos que transcendem o universo das coisas tangíveis.

Entretanto, a bem da verdade, há poemas sem qualquer poesia e poesia em lugares que nem são os da escrita porque essa relação não é exclusiva nem indissociável. A poesia pode estar na brisa que traz perfume roubado de alguma dama-da-noite nas noites desta primavera quente. Em frases de crianças que desvelam a descoberta de algo novo para sua alma em movimento de busca. Na fumaça do incenso que parece elevar nossas preces ao alto. No canto que precede uma homilia ou no tom com que se diz alguma coisa profana. A poesia está por toda parte e em todas as coisas, até mesmo nos mais corriqueiros gestos e nas mais despretensiosas atitudes. Reside também nas manifestações artísticas e não apenas na literatura. Encontramos poesia nas artes plásticas, na fotografia, na música, no teatro, em tudo aquilo onde se deposita intenção de provocar no outro experiência emocional.

Assim, meus olhos encontraram poesia quando pousaram na miniatura de oratório que as mãos de uma jovem senhora de noventa anos produziram a partir de um sonho, que é onde tudo na vida começa. Dona Luzia Mei de Oliveira, este o seu nome, pintou de branco e azul o oratório que acolheu a imagem delicada de Santo Antônio, o grande orador cristão do século XIV, padroeiro da paróquia francana onde seu bisneto Pedro Thompson de Moraes recebeu a primeira comunhão no último sábado. O presente, sonhado para Pedro, ganhou também as mãos e o coração de seus amigos João, Catarina e Luísa, que igualmente recebiam a comunhão pela primeira vez. Como sempre, Padre José Geraldo Segantim pronunciou as palavras precisas para a ocasião, às vezes de forma poética, outras de jeito fático, para dizer que sentia não poder acolher na igreja todos os familiares das crianças, incluindo os avós que ficaram

assistindo à cerimônia de longe, e alguns bem de longe, como Dona Luzia, acompanhando tudo pelo canal do youtube, em São Paulo. A pandemia não os impediu de estar em sintonia com seus pequenos.

Como cada criança ganhou cinco oratórios para oferecer como lembrança aos seus queridos, eu recebi um. Coloquei-o no altar doméstico onde se encontram outras imagens, inclusive de Santo Antônio, de quem minha mãe era devota, tendo nos incutido, à minha irmã Sandra Antônia e a mim, o fervor por este santo especialmente amado pelos portugueses (é patrono de Lisboa)e brasileiros.

Desde então, olho com emoção o oratório branco e evoco um poema de Antônio Constantino, jornalista no Comércio da Franca que foi bibliotecário na “Mário de Andrade”, na capital, e um dos modernistas de primeira hora. Escreveu prosa, mas foi na poesia que se destacou com seu livro “Este é o canto de minha terra”, onde fala de uma capela branca, pintada de azul, evocadora de sentimentos sublimes.

Obrigada, Dona Luzia Mei de Oliveira. Sua lembrança carregada de poesia tem me emocionado muito toda vez que a olho. E poesia, a senhora sabe, é para isso mesmo que existe- para nos emocionar e nos elevar desse patamar terreno onde os pés nos prendem.