08 de julho de 2026

Siracusa

Por Lúcia Brigagão | Especial para o GCN
| Tempo de leitura: 3 min

Um assunto puxa outro... Siracusa, na Sicília, é fascinante. Embora já algum tempo distante daquela visita inesquecível, as lembranças não se esvaíram. Lembro-me de detalhes - aqueles, que valorizam viagens, independentemente do local escolhido para se conhecer. Lembro-me de ter sentado num barzinho na Piazza Duomo, em frente à Catedral de mesmo nome que a cidade, construída sobre ruínas de templo grego cujas colunas, mantidas, foram aproveitadas para sustentar o novo edifício: mistura fina. Na nova construção está guardada a grande estátua de prata de Santa Lúcia, a padroeira. Era sábado à tarde, olhava em torno, enquanto acompanhava o desfile de jovens casais de noivos em poses especiais pós-casamento que surgiam dos becos que circundam o local. E havia muita música, claro. Não previa, foi das maiores surpresas daquela viagem. Siracusa havia entrado no nosso roteiro turístico por muitas razões apontadas tanto por pesquisas, quanto por opiniões buscadas entre viajantes.

Na verdade o interesse nascera bem antes, através da leitura feita há muito tempo, de adorável livro chamado Um Certo Verão na Sicília, de Marlena de Blasi, tema guardado na memória afetiva e posto na caixa dos sonhos particulares. Valeu a pena esperar. Foram muitas as razões do fascínio pela cidade e região. A Fonte de Diana; os becos da ilha de Ortigia, o Castelo Maniac; o Parque Arqueológico; o Museu Arqueológico; o Santuário Madonna Delle Lacrime; as praias ao redor da cidade; a proximidade de outras relíquias como Catânia, Taormina; as cidades barrocas de Noto, Modica e Ragusa. Perto do Templo de Apolo, outra atração, o mercado de Siracusa que surpreende pela variedade, pelo colorido, pelo som misturado – quase música – produzido por vendedores, compradores, turistas e moradores que falam ao mesmo tempo. Verdadeira Babel. No final do estreito, colorido, oloroso beco principal, a surpresa de casa de queijos e frios, com imensa fila de fregueses à porta à espera de serem atendidos por falante e folclórico atendente, que fazia sanduiches únicos ao mesmo tempo quer conversava com os clientes. Mais típico, impossível. 3000 anos de história que desfilam aos nossos olhos e despertam sentimentos únicos! Sentada à mesa do barzinho da Piazza Duomo, fascinada pela beleza do piso luminescente, pela música alegre, pelo brilho do Sol, pelas conversas entabuladas em voz alta, pela movimentação daquela tarde, lembrei-me do clássico Malèna, cujo diretor, Giuseppe Tornatore - responsável por outra jóia do cinema italiano, Cinema Paradiso - produzira em 2000. No filme, a estonteante Monica Belucci é a viúva que passeia naquela piazza, acompanhada pelos olhares concupiscentes do jovem adolescente Renato; da admiração e cobiça dos homens do povoado e da inveja das mulheres. A cena voltou-me à memória e o roteiro – delicioso - também. A fotografia do filme é deslumbrante e impecável. A trilha sonora, fantástica. Filme bonito, emotivo e inesquecível, que mostra a angústia da Itália sob o fascismo e a tragédia da guerra, além de apontar até onde vai a inveja, o preconceito, o moralismo e a maldade. Imperdível.

Foi em Siracusa que entrei pela primeira vez numa igreja sem telhado, pouco antes de chegar na Piazza: era nesse assunto que queria chegar! Fiquei extasiada, absolutamente fascinada pelos muros laterais altos, pela torre inacabada, pelas cadeiras simetricamente colocadas à espera, segundo o guia, dos fiéis que viriam mais tarde para a missa. Imaginei como seria enfeitado o templo para algum casamento naquele espaço. Achei que seria o único templo do gênero no mundo. Pois não era. Pelo visto não era. E eis a prova de que as grandes idéias se espalham pelo planeta: essa maravilhosa construção, enfeitada para cerimônia de gala e que está acima ... está na Turquia!