08 de julho de 2026

À sombra dos carvalhos de Málaga

Por Baltazar Gonçalves | Especial para o GCN
| Tempo de leitura: 2 min

Hoje a saudade de nós abriu a janela que dá para o mundo

e me encolhi à sombra dos carvalhos ancestrais de Málaga.

De todas as cidades testemunhas da minha mágoa

só uma guarda a doce espera que me aflige.

Coberta de mistérios ainda virgens,

Málaga é toda Andaluzia e tem em mim raiz profunda

porque também sou um antigo navegador fenício.

 

A lembrança de nós ardeu mais triste que

o semblante de um navegante em riste

na proa do barco sem o mar.

 

A saudade de nós assombra os carvalhos

e cobre Málaga e seus matagais com azinheiras e

sobreiros e alfarrobeiras conhecidas como pão-de-João e

Figueiras de Pitágoras ou do Egito, e

as árvores confidentes que envelhecem juntas

das jovens criaturas que como nós já não perambulam

na crosta enferrujada onde metemos raízes

porque toda a Terra está coberta por Málaga.

 

Anotávamos os nomes das plantas por brincadeira e

colhíamos lentisco como se Lentisco fosse e

subíamos na aroeira que é o mesmo que alfostigueiro

por graça e tédio e amor sem nódoa

para o sol no meio das Palmas de Ventilador,

dos loendros, dos medronheiros, das murtas,

das estevas e do zimbro espinhosa

porque Málaga era a Terra coberta de nós.

 

Hoje, como se eu tivesse aberto a janela que dá para o mundo,

senti a brisa sorrateira carregar-me para o alto das copas dos edifícios e

deixei-me levar junto dos aromas do alecrim, do tomilho e da lavanda.

Mal equilibrado nessa varanda que dá para o mundo,

recordo as oliveiras selvagens que estavam por toda parte e

hoje são em menor número que as áreas cultivadas de amendoeiras

porque Málaga é a coberta fria da saudade.

 

Lembro-me de termos traçado itinerário ligando o

sul da França ao norte da Espanha,

levaríamos areia do Mediterrâneo por toda parte e

brincando saltaríamos o Atlântico na volta da Península;

nosso regresso seria uma história recheada de poesia

à sombra dos carvalhos daqui,

mas você ficou para trás, escolheu ficar

à sombra dos carvalhos de Málaga;

minha mágoa vai de Franca ao Zaire

e volta, feito nossa sombra sobre a Terra.