Hoje a saudade de nós abriu a janela que dá para o mundo
e me encolhi à sombra dos carvalhos ancestrais de Málaga.
De todas as cidades testemunhas da minha mágoa
só uma guarda a doce espera que me aflige.
Coberta de mistérios ainda virgens,
Málaga é toda Andaluzia e tem em mim raiz profunda
porque também sou um antigo navegador fenício.
A lembrança de nós ardeu mais triste que
o semblante de um navegante em riste
na proa do barco sem o mar.
A saudade de nós assombra os carvalhos
e cobre Málaga e seus matagais com azinheiras e
sobreiros e alfarrobeiras conhecidas como pão-de-João e
Figueiras de Pitágoras ou do Egito, e
as árvores confidentes que envelhecem juntas
das jovens criaturas que como nós já não perambulam
na crosta enferrujada onde metemos raízes
porque toda a Terra está coberta por Málaga.
Anotávamos os nomes das plantas por brincadeira e
colhíamos lentisco como se Lentisco fosse e
subíamos na aroeira que é o mesmo que alfostigueiro
por graça e tédio e amor sem nódoa
para o sol no meio das Palmas de Ventilador,
dos loendros, dos medronheiros, das murtas,
das estevas e do zimbro espinhosa
porque Málaga era a Terra coberta de nós.
Hoje, como se eu tivesse aberto a janela que dá para o mundo,
senti a brisa sorrateira carregar-me para o alto das copas dos edifícios e
deixei-me levar junto dos aromas do alecrim, do tomilho e da lavanda.
Mal equilibrado nessa varanda que dá para o mundo,
recordo as oliveiras selvagens que estavam por toda parte e
hoje são em menor número que as áreas cultivadas de amendoeiras
porque Málaga é a coberta fria da saudade.
Lembro-me de termos traçado itinerário ligando o
sul da França ao norte da Espanha,
levaríamos areia do Mediterrâneo por toda parte e
brincando saltaríamos o Atlântico na volta da Península;
nosso regresso seria uma história recheada de poesia
à sombra dos carvalhos daqui,
mas você ficou para trás, escolheu ficar
à sombra dos carvalhos de Málaga;
minha mágoa vai de Franca ao Zaire
e volta, feito nossa sombra sobre a Terra.