A debate com os candidatos a prefeito de Franca realizado neste domingo pela TV Clube, afiliada da rede Bandeirantes em Ribeirão Preto, teve a participação de todos os candidatos – seis homens e duas mulheres - que disputam a principal cadeira do paço municipal.
A condução firme e competente do jornalista André Costa e o formato dinâmico, que permitia o confronto direto entre os candidatos, prepararam o terreno para o que poderia ter sido um grande debate de projetos dos candidatos, mas a discussão passou longe da profundidade. O tempo relativamente curto também prejudicou, pois com pouco mais de 90 minutos e a grande quantidade de candidatos, a diversidade de assuntos ficou limitada. Na maior parte das vezes, os melhores momentos ficaram reservados para algumas trocas de farpas e alfinetadas.
Ponto alto para as perguntas do mediador, que tirou os candidatos da zona de conforto. André questionou Alexandre Ferreira (MDB) sobre o escândalo dos falsos médicos; Adérmis Marini (PSDB) sobre a decisão do governador João Doria, do seu partido, de aumentar o imposto sobre o calçado; Bruxellas (PT) sobre a rejeição do seu partido junto ao eleitorado; Flávia Lancha (PSD) sobre a viabilidade de seu projeto de uma frente de trabalho com 1,5 mil pessoas; Gilson de Souza (DEM) sobre o Hospital das Clínicas, Veterinário e UBS funcionando até 20h, todas promessas não cumpridas; Orivaldo Donzelli (PTB) sobre sua proposta de construir um Hospital Universitário; João Rocha (PSL) sobre os desafios do transporte coletivo; e Marília Martins (Psol) sobre sua falta de experiência.
Houve pelo menos uma surpresa: Gilson de Souza (DEM), prefeito candidato à reeleição, fez mistério até a manhã de domingo sobre sua participação. Acabou comparecendo e adotou uma postura mais contundente do que a habitual. Fez várias insinuações dirigidas a seus antecessores, especialmente Alexandre Ferreira (MDB), a quem acusa de ter deixado uma dívida de R$ 100 milhões relativa, principalmente, a passivos trabalhistas por conta do pagamento irregular de férias aos servidores municipais. Criticou também diretamente Adérmis Marini e as sucessivas administrações tucanas da cidade.
Abertura
No primeiro bloco, candidatos responderam questionamentos feitos por seus adversários. Marilia Martins foi a primeira e escolheu Gilson de Souza, a quem reservou uma pergunta com toques de ironia. “Fiquei muito feliz em não perguntar para as paredes (referindo-se à ausência de Gilson num debate anterior). Quais são suas propostas para o novo mandato”, questionou a candidata.
Gilson respondeu com a saraivada de números que tem marcado quase qualquer pronunciamento que faça. Disse que Franca é a oitava melhor cidade para se viver no país e que está pagando dívidas de mandatos anteriores. Marilia replicou dizendo que Gilson não fez muita coisa por causa dos cargos comissionados. “Só não foi feito porque foi feito um cabidão de empregos”, disse. Disse ainda que investiu em saúde, especialmente na área de saúde mental. Disse ainda que não teve cabides de empregos, que Franca tem poucos comissionados e que ela estava “equivocada”.
O prefeito foi o segundo a perguntar e escolheu Flávia Lancha. “O que pretende fazer com alguns programas ligados ao FPM?”, disse o prefeito. Flávia respondeu afirmando estar sendo atacada pelo candidato. “Eu fico abismada de ver como essa política velha adora usar siglas, sempre com esse objetivo de desestruturar o candidato.” Flávia sustentou que o debate era para expor ideias e perguntou ao prefeito por que ele não era específico sobre o que queria saber. Gilson aproveitou sua réplica para apontar as dificuldades que o próximo governo terá com uma possível queda no Fundo de Participação dos Municípios (FPM) e, mais uma vez, falou das contas em dia da prefeitura.
Flávia foi a terceira a perguntar e escolheu Rafael Bruxellas. Perguntou como ele planeja reativar a economia na cidade. O candidato respondeu dizendo que pretende usar o poder de compra da prefeitura para priorizar fornecedores locais e que planeja criar um app para ajudar os motoristas de aplicativo a terem uma alternativa que cobre impostos menores. Flávia usou a replica para falar do seu plano de criar uma frente de trabalho com 1.500 vagas de empregos temporários no primeiro mês de mandato.
Na sequência, Bruxellas perguntou para Adérmis sobre as cirurgias eletivas e a falta de verba da prefeitura. O tucano respondeu que a saúde é um dos maiores desafios para o próximo prefeito. Prometeu fazer mutirões para diminuir a fila de cirurgias eletivas na cidade.
Orivaldo Donzeli perguntou para Alexandre o que ele planeja fazer para suprir a falta de vagas em creches. O ex-prefeito afirmou que pretende comprar vagas na rede particular paras as crianças que estão sem creche. O tom extremamente amistoso entre Orivaldo e Alexandre chamou atenção.
Adérmis foi o próximo e perguntou a Orivaldo sobre as os projetos de construções parados no setor de planejamento da prefeitura. Orivaldo respondeu que precisa acelerar a liberação dessas obras para girar dinheiro na cidade e ajudar Franca a ter um melhor desenvolvimento.
Alexandre foi o seguinte e perguntou a Marilia como ela pretende gerar empregos na cidade. Marilia respondeu afirmando que precisa ajudar o trabalhador a se estruturar e que planeja ampliar vagas na área de turismo e alimentação, além de incentivar o trabalho cooperativo.
João Rocha foi o último e, por conta dos cruzamentos de perguntas e respostas, teria que indagar a si mesmo. A alternativa da emissora foi o mediador André Costa elaborar uma pergunta para o candidato. Costa questionou então João Rocha sobre as enchentes na cidade. O candidato do PSL respondeu que fará lagoas de contenção nos córregos e uma cisterna. Segundo ele, são obras simples e possíveis.
A hora do mediador
O bloco começou com André Costa perguntando a Bruxellas sobre a rejeição que o PT, partido do candidato, vem encontrando na luta pelo confiança do eleitorado. “Não vejo uma recusa. Estamos empatados tecnicamente com o segundo colocado (referência à pesquisa da Acif divulgada nesta semana, que aponta a liderança de Flávia Lancha e empate técnico do petista com Alexandre Ferreira na segunda posição). Estamos apresentando um plano diferente dos outros candidatos, uma Franca para o futuro, citando vários mecanismos que poderíamos promover na prefeitura”.
Alexandre Ferreira foi questionado sobre os falsos médicos, que geraram um escândalo na sua gestão, O mediador quis saber como o candidato evitaria a repetição disso, caso eleito. “São pessoas que tinham diplomas, mas com documentos falsos. São estelionatários. Na época, o site do CRM e Cremesp não tinham fotos dos médicos. Hoje tem. Vamos consultar todos os dados para não errar novamente. Fomos vítimas”, disse Alexandre.
Flávia Lancha foi indagada sobre a promessa de contratar 1.500 pessoas no primeiro ano de governo e como conseguiria os recursos. “Eu sou uma mulher de palavra. Antes de fazer essa proposta, estudei sobre o assunto em outras cidades. É possível, sim, fazer através de parceria com a área de Ação Social”, disse a candidata. “Minha prioridade é o trabalhador, que a partir do ano que vem não terá o auxílio emergencial”.
Gilson foi questionado sobre as promessas não cumpridas, como a construção de um hospital veterinário, de um hospital público e o funcionamento das UBS até 20 horas. “Os números trazem a verdade. Quando eu cheguei, a Santa Casa era fecha não fecha, sem dinheiro para pagar os funcionários, se manter... Isso aconteceu com o Alan Kardec e a Apae. Ainda enfrentei uma dívida de R$ 100 milhões deixada pelos ex-prefeitos”, argumentou o prefeito.
Donzelli teve que responder como pretende fazer para cumprir a promessa de erguer um hospital universitário no prédio do esqueleto, construção abandonada doada pelo governo do Estado ao município. “Esse hospital universitário certamente a gente fará. Temos exemplo disso em outras cidades. É viável. É só conseguir os recursos do governo federal e do projeto Luci Montoro”, garantiu.
João Rocha foi perguntado sobre o transporte público, assunto que sempre gera polêmica em Franca. “Nos outros governos os contratos foram renovados com a São José. Em sendo eleito, não poderei rescindir o contrato, mas vou fiscalizar, obrigar a empresa a cumprir integralmente o contrato”.
Marília foi questionada sobre sua falta de experiência na política e se estaria preparada para governar. “Com certeza. Tem aqui vários candidatos que já estiveram na prefeitura e não conseguiram resolver os problemas da cidade. Sou uma mulher que veio dos Conselhos Municipais e conhece a realidade do povo. A voz do povo tem sido cada vez mais reprimida. Começou em 2004, quando foi extinta a Casa dos Conselhos Municipais”.
Adérmis, por fim, foi indagado se concorda com o aumento da alíquota de ICMS do setor calçadista, promovido pelo governador João Doria, que é de seu partido, e como ele faria para reverter a situação caso eleito. “Claro que discordo. Eu defendo Franca. Sendo eleito vou me reunir com o governador para rever essa situação”, garantiu.
Pinga-fogo
No terceiro e último bloco, candidatos perguntaram para candidatos de sua livre escolha. Gilson foi o primeiro e dirigiu seu questionamento a João Rocha. Quis saber o que o adversário faria com os recursos do novo Fundeb. “Eu fiz a pergunta e não é pegadinha. A sigla é porque todos conhecem na política”, disse o prefeito. Joao disse que a sigla é relevante e que o fundo municipal é uma verba carimbada. Alertou que o próximo prefeito terá dificuldades, porque a arrecadação está diminuindo, e que fará parcerias para que crianças não fiquem sem creches. Gilson replicou falando que João não respondeu à pergunta dele e que no seu mandato colocou 12 mil crianças em creches. Joao contestou Gilson e disse que sabe onde a verba tem que ser aplicada. Criticou, dizendo ainda que muito pouco foi feito nas últimas administrações da cidade.
Orivaldo escolheu Alexandre para seu questionamento e perguntou sobre a situação do asfalto na cidade, bem como o que ele planeja fazer para enfrentar o problema. O ex-prefeito disse que o trabalho no recape e nos tapas buracos não têm sido feito da forma ideal. “Nossa malha viária é grande e precisa de um projeto. Nós não temos chuvas e os buracos continuam. Hoje o tapa buraco é feito com um carrinho de mão”, criticou Alexandre Ferreira.
Orivaldo disse que apesar de querer, falta verba, e perguntou como ele faria para resolver isso. Alexandre respondeu com ironia, afirmando que não sabe como ele (Donzelli) aguentou três anos no governo Gilson. Disse que verbas federais podem vir e afirmou que a deputada Graciela Ambrosio mandou verba, que não teria sido aceita pelo prefeito por conta de vaidade e receio de reconhecer o trabalho dos outros.
Na sua vez de perguntar, Alexandre escolheu Orivaldo Donzelli. Ao petebista, questionou o que ele planeja fazer com os vazios urbanos, o que mereceu uma resposta genérica. Alexandre aproveitou então a réplica para promover suas propostas. Orivaldo usou a tréplica para agradecer a Gilson pela chance de ter sido secretário, o que deu a ele a oportunidade de conhecer a máquina pública. Disse ainda que sabe fazer e como fazer para que a cidade melhore.
Adérmis decidiu dirigir sua pergunta para Flávia Lancha. “Na eleição passada você se aliou ao Gilson de Souza e trabalhou com ele. O que aconteceu que deu errado”, provocou o tucano. Flávia respondeu que houve um desgaste entre ela e o atual prefeito e disse que deixou a secretaria por causa da decisão do prefeito de cortar o financiamento dos calçadistas que participariam da Couromoda no estande coletivo de Franca, depois das parcerias já estarem fechadas Na sua réplica, Adérmis acusou Flávia de ter fechado alguns projetos de geração de emprego em Franca. Afirmou ainda que Gilson trocou secretarias por apoio político, insistindo que as escolhas têm que ser técnicas. Flávia rebateu e disse que isso é “uma concepção dele (Adérmis Marini)”. E que deixou um legado após sua participação no governo de Gilson de Souza, citando programas que desenvolveu. Reforçou que desde que saiu da secretaria de Desenvolvimento Econômico, há dois anos, vem percorrendo os bairros da cidade e disse que sabe “qual é a dor da população”.
Flávia escolheu Marilia para seu pinga-fogo, elogiou a participação das mulheres na política e perguntou qual era a visão da adversária sobre as políticas públicas de combate à violência contra a mulher. Marilia respondeu que pretende construir um canal para fortalecer a rede de proteção baseada na Lei “Maria da Penha”.
Bruxellas perguntou a Gilson de Souza sobre a dívida de R$ 100 milhões que ele afirma ter herdado ao assumir a prefeitura. Gilson explicou que a dívida se refere ao pagamento irregular das férias dos servidores municipais feito por seus antecessores. Culpou os outros prefeitos e disse que encerra seu mandato com as contas em dia. Bruxellas afirmou que quem paga as contas é o povo e falou do seu plano de governo, especialmente sobre transparência. Na tréplica, Gilson aproveitou para atacar Adérmis Marini. “O PSDB teve no governo 20 anos e não teve um projeto para renovar o asfalto em Franca”, disse o prefeito. Gilson ainda criticou Adérmis Marini por ter votado, como vereador, contra um projeto do Executivo que concedia um abono aos professores da rede municipal de ensino.
João Rocha direcionou seu questionamento a Adérmis. Quis saber como ele vai lidar com a política de João Dória, governador do mesmo partido de Adérmis. O tucano rebateu João Rocha dizendo que ele “colocou a camisa do PSL há seis meses”. Perguntou se João Rocha é do partido do presidente ou do Senador Major Olímpio (PSL, mas rompido com o presidente) e o acusou de ser esquerdista. “Sou do partido do Presidente Jair Bolsonaro (sem partido)”, retrucou Rocha. Adérmis não se deu por vencido. “Qual problema negar sua raiz esquerdista? Não tenho medo de falar que já fui aliado do PT”, disse Adérmis.
Na última rodada do pinga-fogo, Marília perguntou para Bruxellas o que ele planeja fazer para proteger a população negra, as mulheres e a comunidade LGTBQI+. Ele respondeu que todos precisam reconhecer que existe uma violação dos direitos humanos e que a sociedade precisa compreender que viola esses direitos. Falou sobre suas propostas para creches e também de incentivo ao empoderamento feminino. Aproveitou para exaltar seu candidato a vice, o professor Marinho Procópio, o único negro na disputa. Na sua réplica, Marilia estocou Bruxellas, dizendo que a coligação do PT poderia contar com uma mulher (numa referência a si mesmo), mas que agora é representada por um homem. Disse ainda que Marinho poderia ser o cabeça de chapa, menosprezando a escolha do PT por Bruxellas, que evitou polemizar e usou o tempo restante para falar de suas propostas.
Durante o debate da Clube, houve vários pedidos de direito de resposta, apresentados principalmente por Adérmis Marini, Alexandre Ferreira e Gilson de Souza. Nenhum deles foi acatado pela direção de jornalismo da emissora.
O último debate entre os candidatos a prefeito de Franca será promovido pelo GCN, em parceria com a rádio Difusora AM 1030 khz, na quinta-feira, 12 de novembro. Será o confronto final entre os homens e mulheres que pretendem administrar a cidade. A transmissão começa às 20h, pelos canais digitais do GCN no Facebook, Instagram e Youtube, e também pela rádio Difusora.