09 de julho de 2026
PROBLEMA SOCIAL

Prefeitura leva moradores de rua para o Champagnat, suspende serviço e os 'devolve' para as ruas

Por Lucas Faleiros | da Redação
| Tempo de leitura: 6 min
Dirceu Garcia/GCN
Moradores de rua reclamam da ineficiência dos serviços prestados pela Prefeitura de Franca

Com o encerramento do programa pernoite para pessoas em situação de rua e a mudança de sede do Centro Pop, ocorridos nas últimas semanas, os utilizadores e beneficiários dos programas, que estavam sendo realizados nas instalações do ginásio “Demétrio Soares”, do Colégio Champagnat, acabaram "devolvidos" às ruas nas imediações do Centro.

Com o fim dos atendimentos, a movimentação dos moradores de rua aumentou consideravelmente na região e, com ela, também a insegurança de parte da população. Comerciantes afirmaram que eles causam problemas aos estabelecimentos e medo nos clientes. Em contrapartida, moradores de rua entrevistados pelo GCN se defenderam e disseram que apenas parte das pessoas nesta situação são causadoras de adversidades.

“Todo dia é essa perturbação.” Assim define Robert Carrijo, dono de uma mecânica no bairro, quando perguntado sobre as atuais circunstâncias do local. “Depois que mudaram o Centro Pop para cá, nós não temos sossego. É o dia todo assim. Fora que cria uma preocupação tanto para mim quanto para o cliente. Quando as pessoas deixam seus carros comigo, eles ficam sob a minha responsabilidade. Se alguém roubar, quebrar ou riscar o veículo, a culpa recai em mim. Eu fico como culpado. A minha clientela também fica receosa com a presença deles”, disse.

Apesar disso, o mecânico pondera: “Cara, têm muitos aí que são gente boa. Só que a situação fica complicada para a gente. Várias vezes eu estou aqui trabalhando com os clientes ao meu lado e chega algum deles, entrando de uma vez: ‘Ou, me dá um copo d’água?’. E é claro, a gente ajuda. Eu não vou negar um copo com água ou o uso do meu banheiro. Só que alguns chegam bem malcheirosos e, algumas vezes, totalmente alterados por conta do uso de drogas. É muito triste. Um até me roubou aqui na mecânica. Foi coisa pouca, mas levou. Já tentaram arrombar o portão à noite também. A minha sorte é que o alarme tocou e dispersou quem tentou. Não dá pra afirmar que são os usuários do Centro Pop, mas aumentaram essas situações depois que mudaram para cá. É isso. A gente fica à mercê.”

Katiucia Bernardes, que trabalha em um escritório de contabilidade que fica em frente ao cemitério da Saudade, também afirma que a movimentação de moradores de rua tem prejudicado o fluxo de clientes. “Nós já trabalhamos aqui há oito anos e nunca tivemos esse tipo de problema. Até que passaram o centro de atendimento para cá. Nós já até passamos por alguns constrangimentos e ficamos bem inseguros. É muita bagunça, palavras de baixo calão e pessoas pedindo de tudo. Não teve nada de positivo. Nosso alarme já disparou de madrugada e pode ser que tenham sido eles. Não dá pra ter certeza. O problema é que toda insegurança que surgir nós vamos associar a eles. Essas pessoas também se aglomeram bastante aqui perto. Fica algo ruim, ainda mais com a pandemia. Nós os ajudamos com água e o que mais eles pedem, mas dá medo. Tanto pela insegurança quanto pela possibilidade de contágio”.

 

A outra visão

Alguns dos moradores de rua que se alojam próximo ao local falaram com a reportagem do GCN. Eles se defendem das acusações. “O pessoal vê o morador de rua e não entende que, para a maioria de nós, a única vontade que existe é de voltar a ter uma vida equilibrada. Grande parte da população olha para a gente com repugnância e medo. Alguns até vêm de longe para ajudar. Mas quando os moradores de rua estão perto de suas casas, não fazem nada. Pelo contrário: procuram afastá-los. Tenho vontade de conseguir um emprego fixo, ter a minha própria casa e reestabelecer a minha vida. Só que as coisas não são tão simples. Existem alguns que ficam na rua por vontade. Porém, a maioria, assim como eu, está aqui por problemas familiares. Só é possível voltar à vida normal com apoio. Seja das pessoas ou do governo”, conta Caio César Silva Sousa, 34.

Ele, que mora há 11 anos nas ruas, relata que fazia uso dos serviços do Centro Pop, enquanto instalados no ginásio “Demétrio Soares”, mas que não ficou surpreso com o deslocamento do serviço. “Na verdade, a gente já sabia que isso iria acontecer, né? Agora, estamos nos virando como dá. Para tomar banho, por exemplo, a gente tem que ir em uma mina d’água que existe aqui perto – localizada na Praça dos Angicos. Para conseguir comida ou roupa, aí é só com ajuda”. 

Perguntado sobre o que o próximo prefeito da cidade poderia fazer para ajudá-los, Caio pede um pouco mais de atenção para o grupo. “A gente precisa de um abrigo mais eficiente. Um local estável em que possamos tomar banho e nos fixarmos por um tempo, recebendo o necessário. Também precisamos de mais oportunidades de emprego. Seriam os primeiros passos e que nos ajudariam muito. Acima de tudo, necessitamos da atenção do poder público. De uns anos para cá, o número de moradores de rua aumentou muito e o descaso também.”

Rose, que se encontra há 10 anos nas ruas, relata a dificuldade para conseguir atendimento nas casas de assistência social. “Tem muita burocracia. Além disso, o número de vagas é limitado e várias das pessoas que conseguem ser atendidas acabam não dando o valor necessário. Elas abandonam. Então, fica muito complicado. A Casa de Passagem, por exemplo, está sempre lotada. A gente chega lá e precisa ficar esperando. Nas casas, eles dão o que a gente precisa. Tem assistente, psicólogo, tudo. Mas a demanda é gigante. São muitas pessoas para poucas vagas. Quarenta vagas para o monte de gente que tem em situação de rua? Não dá!”

A mulher diz que entende o lado da população que fica com medo das pessoas que moram nas ruas. “É compreensível. Alguns fazem por onde. Realmente existem os que incomodam, roubam e fazem coisas ruins. É claro que existem. Porém, eles são uma pequena parcela do todo de pessoas que estão em nossa situação. A gente acaba sendo punido com o medo, ignorância e intolerância do povo sem ter nenhum tipo de culpa”.

Eles também foram perguntados sobre a pandemia e demonstraram entender o funcionamento do vírus e medo de um possível contágio. “Ficamos com bastante receio. O coronavírus, para piorar, pode ficar infectar a pessoa e ela não manifestar nenhum sintoma. Com isso, não sabemos quem tem ou não a covid-19. Eu sempre utilizo a máscara. É uma forma de nós nos prevenirmos. Além disso, o morador de rua não tem recursos, então, a atenção precisa ser ainda maior. É muito perigoso e nós não temos nenhum suporte. A maioria não está nem aí. Exemplo disso é a dificuldade que encontramos para conseguir qualquer atendimento”, desabafa Rose.