08 de julho de 2026

Invocações do Mal

Por Paulo Rubens Gimenes | Especial para o GCN
| Tempo de leitura: 1 min

Qualquer doce é mais doce quando a boca está saturada de sal. Fosse esta frase construída de maneira mais formal, usando palavras mais “pomposas” teria tudo para figurar entre famosos adágios ou ditados populares tamanha verdade sua simplicidade carrega.

Tendo familiares, minha mãe e meu sogro, acometidos pela forma mais grave do Corona Virus – internação, intubação e traqueostomia – posso dizer que a aridez e o sal fizeram morada em nossas bocas e vidas.

Depois da abençoada alta médica, ambos puderam terminar suas recuperações em casa.

O excesso de cuidados aliado à nossa falta de experiência tratou de estender um pouco mais esta fase salgada; mas se tudo na vida traz uma lição, aprendemos a valorizar, sorrir e até gargalhar com qualquer momento “adocicado” que se apresente nestes conturbados dias.

E foi meu sogro, que ainda inspira muitos cuidados, que nos presenteou com essa “guloseima de causo”. Andressa, a cuidadora de minha sogra há anos, por seu jeito bem humorado e agitado recebeu de meu sogro o carinhoso apelido de “ Capeta” e ele vive chamando-a para tudo o que precisa, desprezando os enfermeiros que se revezam cuidando dele nesta fase de recuperação.

Dia destes um enfermeiro lá estava pela primeira vez, então algo irritou meu sogro que esbravejando chamou Andressa, a cuidadora:

- “Capeta” vem cá! “Capeta” vem aqui agora!

O pobre do enfermeiro, que não sabia do apelido, benzeu-se e disse:

- Não chama essas coisas não Sr. Samir, vamos orar pra Nossa Senhora que é melhor.

Um doce em meio ao sal.