Acostumados com o fascinante mundo virtual, entre legendas de “bom dia” ou “me sinto extremamente feliz”, esquecemo-nos da prisão em que nos encontramos acreditando que a sociedade do espetáculo não terá fim.
Mas a poesia também desestrutura e o leitor merece desconfiar da luminosidade dos holofotes direcionados para simular a vida nesse palco.
Se alguns poemas nos confortam ampliando a ilusão, outros nos apertam como abraço em velório e cumprem o papel de quebrar o encanto revelando o estado pútrido das relações em que nos tornamos espectro do humano.
Alguns poetas nos acordam do sono (marionetes no gabinete de Caligari) e no desaterro das consciências encaramos o fato que existir não é fácil, de que não existe elixir milagroso, de que as luzes nos cegam nesse parto ao contrário.
Você me diz que envelheceu da noite para o dia e nem percebeu, ontem mesmo não tinha esse rosto e nele o semblante cansado. Entristeceu. As marcas do tempo na sua pele em vão pedem restauro. Se sua vida fosse um livro, diz que já escreveu mais do que desejava ter lido.
Quando você me diz essas coisas eu rio do deboche, você escracha a vida numa falha idiomática e saltamos os paradoxos juntos. Em meio ao riso, aquele tipo de humor que assusta quem espia sem captar a lógica, concordamos ser eu Atlas com pesado monumental aos ombros e você água doce sob o arco da ponte.
De ouvir falar do amor, eu que só ressentia sinto-me renovado. A amargura dissipa a sombra escura sobre o rio que encobria a ponte. Então eu rio rio rio, e concordamos que águas passadas não movem estes moinhos tristes - moinho sem vento não gira, toma tento meu peito aberto é albergue de girassóis.