08 de julho de 2026

Andarilha

Por Baltazar Gonçalves | Especial para o GCN
| Tempo de leitura: 1 min

nel mezzo del cammin di nostra vita

mi retrovai per una selva oscura,

ché la diritta via era smarita.

Dante Alighieri

 

antes parecia feliz mas acordou no escuro

já no meio caminho da sua vida percorrida

dormia em si e bastavam-lhe as migalhas

dadas por homens perfeitamente satisfeitos.

 

Sombra sonâmbula flâmula tremula esquálida

na contraluz de si mesma era quem nada sabia

sedenta de não ver a clarividente erupção

saiu para fora de si, deu costas ao conhecido

alargando seu êxtase até quase a morte

tornou-se na claridade livre andarilha

 

agora conta que o trabalho a consome

sem paciência para o vazio das ideias

ela me diz que lê pouco, o suficiente

e escreve sempre a manter a sanidade.

me esclarece a pedra de Drummond

diz que desde Dante pedra é caminho,

ela acrescenta uma joia de itabirito

na jornada que deve seguir sozinha.

ela me diz que prefere fazer nada

a fazer qualquer coisa sem propósito relembra o que a levou quase à morte

na agonia dos vícios banais profundos

fortuna e má sorte, afirma sorrindo

diz que via do precipício cá embaixo

a si mesma grávida, letárgica e vazia

como a concepção da Virgem Maria. ela

abre com as mãos o magma e mergulha

sonha saber naufragar os seus sonhos

habita e canta a febre que a acometeu

derrete o metal aplainando palavra dura. ela me convence: ventura é cair! e rimos

ouço calado quando diz: amigo, andei muito

eu sou andarilha – uma palavra mordida.

 

ela é minha e eu sou dela flor

não há força que a impeça

nada estanca seu caminho

 

rara abre-se na própria dor.