nel mezzo del cammin di nostra vita
mi retrovai per una selva oscura,
ché la diritta via era smarita.
Dante Alighieri
antes parecia feliz mas acordou no escuro
já no meio caminho da sua vida percorrida
dormia em si e bastavam-lhe as migalhas
dadas por homens perfeitamente satisfeitos.
Sombra sonâmbula flâmula tremula esquálida
na contraluz de si mesma era quem nada sabia
sedenta de não ver a clarividente erupção
saiu para fora de si, deu costas ao conhecido
alargando seu êxtase até quase a morte
tornou-se na claridade livre andarilha
agora conta que o trabalho a consome
sem paciência para o vazio das ideias
ela me diz que lê pouco, o suficiente
e escreve sempre a manter a sanidade.
me esclarece a pedra de Drummond
diz que desde Dante pedra é caminho,
ela acrescenta uma joia de itabirito
na jornada que deve seguir sozinha.
ela me diz que prefere fazer nada
a fazer qualquer coisa sem propósito relembra o que a levou quase à morte
na agonia dos vícios banais profundos
fortuna e má sorte, afirma sorrindo
diz que via do precipício cá embaixo
a si mesma grávida, letárgica e vazia
como a concepção da Virgem Maria. ela
abre com as mãos o magma e mergulha
sonha saber naufragar os seus sonhos
habita e canta a febre que a acometeu
derrete o metal aplainando palavra dura. ela me convence: ventura é cair! e rimos
ouço calado quando diz: amigo, andei muito
eu sou andarilha – uma palavra mordida.
ela é minha e eu sou dela flor
não há força que a impeça
nada estanca seu caminho
rara abre-se na própria dor.