10 de julho de 2026
MUITO CARO

Preço do arroz praticamente dobra nos supermercados de Franca

Por Lucas Faleiros | da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Em alguns estabelecimentos, venda do produto passou a ser limitada

Nos últimos dias, tornou-se comum ler notícias ou posts na internet com informações e opiniões sobre o aumento repentino no preço de diversos alimentos que compõem a cesta básica. Dentre os itens, o que mais teve seu valor repercutido foi o arroz, que chegou a quase dobrar de preço em alguns estabelecimentos.

O economista da Acif (Associação do Comércio e Indústria de Franca), Adnan Jebailey, acredita que dois pontos sejam os causadores das alterações nos preços. “O primeiro deles é o aumento da demanda internacional, ocasionada pelo descompasso produtivo causado pela pandemia. O outro é a alta no preço do dólar. Somando esses fatores, o que temos é a preferência dos agricultores brasileiros pela exportação, deixando um pouco de lado as vendas para o mercado interno.”

Segundo ele, o arroz foi um dos itens que mais sofreu com isso, mesmo o Brasil não sendo um grande exportador do alimento. Por isso o aumento repentino no custo do alimento. “Para se ter uma ideia, a saca de arroz (50kg) teve variação positiva 65,33% entre janeiro e setembro desse ano, segundo dados do Cepea/USP. E isso mesmo sem ser um dos principais itens agrícolas da pauta exportadora brasileira.”

Ainda assim, Adnan crê que os alimentos devem ter seus preços normalizados rapidamente. “A boa notícia é que este aumento deve ser sazonal, tendo em vista que logo os países terão suas produções normalizadas, diminuindo a demanda de importação."

Em nota, a Apas (Associação Paulista de Supermercados) afirmou que tem solicitado às redes associadas que “não aumentem suas margens de lucro e repassem aos consumidores apenas o aumento proveniente dos fornecedores, de modo que possamos assegurar o emprego dos nossos colaboradores e garantir que a população tenha alimentos de qualidade à disposição”.

A entidade, assim como Adnan, vê a alta do dólar como um dos pontos predominantes para os aumentos dos preços, porém, na nota, cita que o isolamento social, o Auxílio Emergencial e a quebra da safra no país fizeram com que crescessem ainda mais as demandas pelas mercadorias, ocasionando a falta de estoque e alta dos valores.

A Apas também afirma que, ao contrário dos índices de outras áreas, os alimentos estão com os valores fora de controle. “O feijão e o arroz, por exemplo, estão respectivamente com inflação acumulada em 23,1% e 21,1% no ano. Está cada vez mais difícil para o consumidor comprar os itens que costumeiramente eram os primeiros a entrar no prato. O arroz, feijão, leite e óleo de soja estão com aumento acumulado médio em 18,85% no ano, número quase quatro vezes maior que o índice geral de preços dos alimentos (5%).”

 

Opinião dos consumidores

A contadora Adriana Ferreira diz que tem sentido no bolso o aumento no preço de vários produtos básicos e de uso cotidiano para todos. “A alta dos preços nos supermercados está muito clara e, ultimamente, estamos vendo pesquisas mostrando um aumento em torno de 20%. Mas, o que a gente sente no bolso não é só isso. De junho a agosto, têm produtos como o arroz, óleo, leite e derivados que subiram de 30% a 35%. Se compararmos de janeiro a agosto então, é muito mais. Nesse momento tão difícil de pandemia, onde as pessoas sofrem com o desemprego, salários reduzidos, vários informais sem renda, ainda tem essa preocupação a mais para as famílias: se vão conseguir se sustentar ou não. Não dá para entender.”

Para outra consumidora, Débora Riul, o aumento dos preços é indevido e gera um sentimento de indignação. “Como consumidora, fico indignada com o aumento exagerado dos produtos no supermercado.  Alguns itens básicos tiveram acréscimo anormal em seus preços. Justo agora, quando estamos passando por uma pandemia em que parte da população está sobrevivendo da pequena ajuda governamental. Além disso, muitos que seguem trabalhando sequer receberam ajustes positivos de salário, pelo contrário.”

 

Ponto de vista do vendedor

O diretor do Varejão Irmãos Patrocínio, Ricardo Patrocínio, afirma que um dos motivos para o aumento do preço de produtos como o arroz foi a compra exagerada por parte da população. Além disso, ele cita um “oportunismo” vindo de produtores. “No começo da pandemia, muita gente começou a estocar o produto, o que criou um desfalque no mercado. Além disso, teve a questão das exportações. Porém, agora, têm também muitos produtores e intermediários que estão se aproveitando do momento e aplicando um aumento desproporcional. Esse, claro, não é o nosso caso.”

Ele afirma que sua rede tem brigado com os fornecedores para garantir preços mais justos para os clientes. “Nossa briga é com os fornecedores. Nós estamos vendo que o povo está sem dinheiro e sem trabalho. Não é correto aumentar o preço. No caminho contrário, estamos vendendo produtos a preços abaixo do custo. Por quê? Porque temos que colaborar com a situação. Nós nos colocamos no lugar das pessoas e sabemos que não é certo impor uma margem de lucro em mercadorias que são básicas.”

Ricardo ainda conta que os preços devem cair com as recentes decisões do governo. “Os valores vão baixar, porém não sabemos quando exatamente. A decisão de permitir a importação do arroz a custo zero de imposto refletirá rapidamente no mercado. Creio que em pelo menos 30 dias essa situação vai melhorar.”

De acordo com Rafael Patrocínio, diretor do Rafa’s Super Varejão, a mudança nos preços fez também com que os clientes variassem seus pedidos. “A demanda tem sido diversificada. Os consumidores têm comprado mais alimentos alternativos, como macarrão, verduras e legumes.”

Ele também alega que o governo “deixou a porteira aberta para as exportações. Com isso, os produtores venderam para outros países quase toda safra de arroz e soja, o que causou a alta nos preços”.

 

Limite de vendas

Em alguns estabelecimentos, as vendas de pacotes de arroz foram limitadas e cada cliente passou a poder levar apenas uma determinada quantidade do produto. É o que acontece no Varejão Irmãos Patrocínio. Segundo o diretor do varejão, a ação é feita “para que a rede possa atender todos os seus clientes de maneira justa”.

 

Imposto zerado

Na última quarta-feira, 9, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) decidiu zerar os impostos para importações de arroz em casca e beneficiado até o final deste ano. No entanto, a decisão, que foi tomada para conter a alta dos preços do produto, restringe a cota de compras sem alíquota a até 400 mil toneladas.