O primeiro caso confirmado da Covid-19 no Brasil foi registrado no dia 26 de fevereiro. Em Franca, a Vigilância Epidemiológica confirmou o primeiro diagnóstico no dia 27 de março, quase um mês depois da doença chegar oficialmente ao país. A família de um garoto francano de 15 anos, Ruan Brites, acredita que ele possa ter contraído o coronavírus antes, nas primeiras semanas de fevereiro. As opiniões médicas se dividem. A pediatra que o atende acredita na possibilidade. Os chefes da Vigilância Epidemiológica e Sanitária de Franca acham pouco provável.
Ruan é francano e sempre morou na cidade. Nasceu com microcefalia e paralisia cerebral. Luciana Brites, mãe do garoto, diz que o filho é um milagre, pois não tinha nenhuma perspectiva de vida ao nascer. Apesar da rotina intensa de cuidados, Ruan sempre foi muito forte, mas a família passou por um susto em fevereiro, quando o menino apresentou febre e muita tosse.
“Tudo começou no dia 11 de fevereiro, quando levei o Ruan no plantão, porque ele estava com febre e tosse. Foi diagnosticado com uma crise alérgica e medicado, então voltamos para casa”, disse Luciana. “Depois de quatro dias, ele acordou por volta das três horas da manhã com uma tosse que nunca tinha tido. Levei ele na pediatra e ela nos disse que era uma infecção de garganta. Começamos a tratar com antibiótico.”
Só que Ruan não apresentava nenhum sinal de melhora. Os pais do menino perceberam o aumento na tosse e um cansaço excessivo. A partir daí, a família teve de fazer uma série de exames e procurar diversos médicos.
Através de um raio X, foi descoberta uma pneumonia. “Ficamos desesperados. Fizemos uma tomografia e ela veio bem alterada. Pela tomografia foram diagnosticadas, além da pneumonia, algumas inflamações que, a princípio, seriam uma crise de bronquite asmática, coisa que ele nunca teve. A parte pulmonar do Ruan nunca teve nenhuma complicação”, afirmou a mãe.
Depois de sete dias, Ruan já reagia melhor. Dez dias depois, ele estava bem. Mas durante todo esse período, os pais tiveram que aspirar o garoto, pois ele mal conseguia respirar.
De lá para cá, Ruan não apresentou mais nenhum sintoma parecido. No dia 17 de agosto, Luciana pediu à médica pneumologista do filho um exame de Covid. Para a surpresa da mãe, o exame IgG relatou positivo e o IgM negativo – ou seja, ele teve Covid, mas não tem mais o vírus no corpo. Na prática, significa que o paciente teve a infecção há pelo menos três semanas e possui anticorpos.
Foi aí que os pais de Ruan desconfiaram de que o contágio possa ter sido em fevereiro, manifestado na crise respiratória, já que a família não teve contato com ninguém durante a quarentena. “Concluímos que tudo isso foi em fevereiro, porque depois ele nunca mais teve algum sintoma parecido. Até nossos médicos acreditam nessa hipótese. E na condição dele, jamais seria uma pessoa assintomática”, disse Luciana. O marido e o filho de 9 anos também apresentaram sintomas semelhantes durante o período.
“Não saímos muito com ele. Mas na época, meu esposo trabalhava. Desde que começou a pandemia, não saímos com ele para nada, só para as consultas e tomando todos os cuidados. Na minha casa, não vem ninguém e meu marido foi afastado do trabalho, por termos o Ruan.”
Luciana conta que a família ficou desesperada quando o filho apresentou um quadro ruim, mas que hoje são muito gratos por Ruan ter passado por isso sem que soubessem. “Assustei muito na época, ele nunca tinha ficado daquele jeito. Hoje em dia, ele está super bem, sem nenhuma complicação. Todos os exames de rotina estão ótimos”, disse a mãe, aliviada.
Médicos se dividem
A pediatra que acompanha Ruan, Maísa Moscardini, disse em entrevista ao portal GCN que acredita no contágio por Covid em fevereiro. “Ele é realmente uma criança de risco”, explica. O garoto teve duas crises respiratórias – uma mais severa, em fevereiro, e outra em maio, mais leve.
“A mãe ficou isso na cabeça, ficou muito preocupada com a Covid (...) Ela questionou para gente fazer o exame. Eu pedi a sorologia dos anticorpos e realmente deu”, afirma. “Como veio IgG positivo, isso mostra que ele teve mesmo a infecção pelo coronavírus. A gente acredita que foi em fevereiro. Pode ter sido de maio também, mas foi mais leve. Acredito que foi em fevereiro porque foi um quadro mais grave. Ele demorou para sarar, então eu acredito que pode ter sido mesmo em fevereiro”.
A posição de Maísa, que é pneumologista, não é compartilhada pelo médico Homero Rosa, chefe da Vigilância Epidemiológica, para quem a hipótese do garoto ter sido infectado por coronavírus ainda em fevereiro, sem que tenha viajado ao exterior ou tido contato com alguém que tenha chegado de um outro país, é bem improvável. “É mais possível que tenha sido uma outra bactéria. As pessoas que têm doença neurológica crônica são mais propensas a desenvolver pneumonias do que a população de forma geral”, defende.
Felipe Granzotti, chefe da Vigilância Sanitária, disse que é muito difícil identificar a data em que alguém que possui anticorpos contraiu o vírus, mas também acha que seria improvável o caso ter ocorrido em fevereiro.