10 de julho de 2026
READAPTAÇÃO

Pandemia altera rotina e cria novas perspectivas para psicólogos

Por Lucas Faleiros | da Redação
| Tempo de leitura: 4 min
A psicóloga Josiane Barbosa: por enquanto, atendimento apenas online

Os psicólogos, profissionais da saúde que estudam e buscam ajudar as pessoas a entenderem os seus comportamentos e a superarem os seus problemas e traumas, tiveram as suas rotinas completamente alteradas pelo surto do novo coronavírus.

Além das restrições impostas a todos os trabalhadores, os profissionais da psicologia, que comemoram na próxima quinta-feira, 27, o Dia Nacional do Psicólogo, também precisaram colocar em pauta novos estilos de tratamento e atendimento. Tudo para não deixar de ajudar os seus pacientes, muito deles ainda mais necessitados de apoio nestes tempos de pandemia.

Para Suzi Mara Freitas, psicóloga que atua na área há dez anos, a pandemia forçou uma reorganização imediata e teve impacto não só para os terapeutas, mas especialmente também para as pessoas atendidas. “De início, precisamos adaptar tudo ao atendimento online e lidar com as saídas e entradas de pacientes. Muita gente acabou não dando continuidade ao tratamento por causa da instabilidade financeira ou por dificuldades com a tecnologia e falta de privacidade em casa. Em contrapartida, com a acentuação e surgimento de dificuldades emocionais por conta do isolamento, novas pessoas têm procurado pelo atendimento”.

Segundo a psicóloga, atender à distância exige uma maior atenção por parte dos profissionais. Ainda assim, não é raro que alguns  pacientes se saem até melhor na nova forma e já sinalizam continuar sendo atendidos virtualmente. “O atendimento online prejudica alguns sentidos. Nós, terapeutas, ficamos restritos ao contato visual e auditivo. Movimentos, emoções e sensações ficam menos perceptíveis. Porém, mesmo com a volta das consultas presenciais, alguns pacientes, em especial os adolescentes, preferiram continuar virtualmente. Apesar das complexidades, essa forma de atender tem sua viabilidade, pois, de acordo com alguns estudos, auxilia na desinibição e interação das pessoas”.

Suzi Mara conta que tem tentado ajudar seus pacientes a enxergar o momento de maneiras diferentes. “Senti um significativo desgaste emocional neles. Instaurou-se um medo em decorrência da pandemia e suas consequências políticas, sociais e econômicas. O isolamento ainda fez com que muitas pessoas se sentissem inseguras, sozinhas e ansiosas. Trabalho para ajudá-los na adaptação e na busca por um novo olhar. É um momento de estar e cuidar melhor de si mesmo”.

A psicóloga Liliane Flávia Souza Cruz Cardoso afirma que para voltar a atender de maneira presencial, foi necessário tomar uma série de medidas e cuidados especiais. “Os pacientes têm se sentido seguros para vir. Eu realizo a higienização de todo o equipamento a cada consulta: cadeiras, maçanetas, interfone, banheiros e sala de espera. Também disponibilizo álcool em gel e o atendimento é feito obrigatoriamente com uso de máscaras. Os ambientes ficam sempre arejados e adotamos o distanciamento das poltronas. Também fica à disposição um tapete higiênico na entrada da clínica, para que todos possam limpar seus sapatos ao adentrar o espaço”.

Segundo Liliane, sua demanda de pacientes aumentou durante o período de isolamento. “Mais pessoas têm buscado o acompanhamento psicológico. Muitos pacientes que já tinham histórico de depressão, ansiedade, TOC e outras doenças tiveram seus sintomas intensificados. No entanto, até mesmo indivíduos que nunca haviam apresentado nada relacionado passaram a desencadear dificuldades com essa crise”.

Enquanto alguns profissionais já estão voltando a atender presencialmente, outros preferiram esperar mais um pouco. É o caso de Josiane Barbosa, psicóloga há 37 anos. “Desde o início da pandemia, fiz a transposição dos atendimentos presenciais para o online. As atividades individuais e em grupo estão sendo mantidas dessa maneira. Até agora, não aderi à volta presencial. Considero isso um risco alto para as pessoas que atendo e vou esperar os índices da cidade melhorarem um pouco”.

De acordo com Josiane, o momento foi importante para os terapeutas, que estão aprendendo a atender de maneira não-convencional. “Estamos aprendendo a lidar melhor com essa distância material. Tenho percebido que o atendimento virtual impacta diferentemente nos indivíduos. Existem pacientes que estão avançando degraus importantes do autoconhecimento justamente neste período. Ou seja, o processo psicoterapêutico pode ser muito bem assimilado com o isolamento social, com as pessoas refletindo muito sobre si mesmas. Apesar disso, há um desgaste maior para nós, profissionais da área”.

Yara Baccaro, psicóloga de 34 anos, afirma que a pandemia impactou diretamente na mente das pessoas. “Trouxe toda uma sensação de insegurança muito grande a muitos pacientes, por terem de lidar com um vírus desconhecido e de grande letalidade. Tenho notado que o momento fez com que as pessoas ficassem mais sensíveis e buscassem mais reflexões e contato com as pessoas de seus lares. Porém, alguns acabaram sendo mais atingidos emocionalmente. Muita gente precisou paralisar ou adiar seus planos devido à expansão do novo coronavírus”.

Para Yara, a procura dos pacientes também aumentou no período de pandemia. “A demanda tem aumentado. Algumas pessoas estão procurando iniciar a terapia e outras seguem nela com o intuito de manter sua saúde mental. Elas buscam filtrar as informações recebidas para permanecerem cientes de tudo o que acontece, sempre mantendo o equilíbrio emocional”.