A chegada da pandemia no Brasil trouxe consigo desespero e um grande sentimento de incerteza para diversos ramos de produção. No entanto, mesmo com a crise instalada, boa parte dos agricultores da região de Franca não encontraram dificuldades maiores para fazer caixa com seus produtos.
No caminho inverso de outros ramos, os produtores agrícolas notaram aumento nos valores de venda das mercadorias e lucros maiores do que os esperados antes da crise. Essa alta pode ser explicada pela variação do preço das moedas internacionais, que impacta diretamente na agricultura, e pelo aumento de consumo dos produtos no isolamento social.
Flavia Olivito Lancha Alves de Oliveira, conhecida agricultora e pecuarista da região, diz que a pandemia chegou em uma importante fase da produção e que, em um primeiro momento, as vendas ficaram instáveis. “Quando o surto chegou ao país, estávamos em processo de colheita da soja e na espera para colher a cana. Quanto ao café, aguardávamos apenas o enchimento dos grãos para fazer a apanha. Inicialmente, as nossas vendas diminuíram. Contudo, o negócio voltou a fluir com o tempo e o preço das comodities vendidas aumentou, por conta da alta do dólar”.
Flávia também discorre sobre os futuros investimentos e projeções que faz para a suas produções. “Nossas expectativas são boas. Fizemos travas de vendas agradáveis e aproveitamos para comprar os insumos por preços menores, o que nos ajuda a manter uma boa margem de lucro. Além disso, temos compradores nos países mais desenvolvidos, os quais já estão controlando a pandemia. Planejamos investir mais para o restante deste ano.”
Juliana Faleiros Cintra, produtora dos cafés Mundo Novo e Catuaí, na região de Ribeirão Corrente, afirma que questões futuras ainda lhe assustam. Porém, ela diz que tem conseguido faturar mais do que o esperado. “Nós estamos vendendo os grãos por preços melhores do que os do ano passado. Em 2019, no período de julho, o preço da saca estava por volta de R$400,00. Agora, neste início de colheita, estamos conseguindo vender o café por R$500,00. Ainda assim, temos medo do futuro. É difícil prever o que nos aguarda. A pandemia nos trouxe dificuldades para trabalhar e para estimar o que ainda faremos”.
O cafeicultor João Jacinto afirma que o coronavírus impactou diretamente no mercado cafeeiro. “No começo, muita gente estava com contratos para cumprir e vendas ainda a serem realizadas. Isso deu uma travada no comércio. Mas, com o tempo, tudo foi se normalizando”.
João alega que o isolamento fez com que as pessoas aumentassem o consumo doméstico do grão, o que trouxe mais lucro para os vendedores. “A forma de se beber café mudou. Antes, o pessoal vinha utilizando muito as cápsulas, também chamadas de ‘monodoses’. Com as famílias em casa, o café é coado em grandes quantidades e, às vezes, desperdiçado, o que faz com que o produto seja mais comprado”.
O rapaz também explica as mudanças que o coronavírus causou em suas colheitas. “Nós tivemos que investir um bom dinheiro em equipamentos para proteção dos trabalhadores, os EPI’s, e tempo para reeducação dos hábitos. Estamos dividindo as pessoas em grupos menores para evitar ao máximo o contato direto”.
Segundo dados da Coordenadoria de Desenvolvimento Rural Sustentável, órgão de extensão rural da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, dois setores da agropecuária acabaram sofrendo mais do que os outros: a produção de leite e a oleicultura. Isso ocorreu por conta do fechamento das escolas, que utilizavam o leite e as hortaliças na confecção das merendas. Todavia, de acordo com a coordenadoria, a situação já foi controlada.