08 de julho de 2026

“A filha de Mrs. Dalloway”


| Tempo de leitura: 5 min

Prêmio UFES de Literatura na modalidade romance, o último livro da francana Vanessa Maranha, cujo título encima estes comentários, traz em si o refinamento do estilo intimista que caracteriza a autora. E surpreende por inovação na estrutura, narrativa fragmentada onde a protagonista de “Mrs. Dalloway”, ficção de Virgínia Woolf, volta à cena e faz companhia à escritora inglesa transformada em personagem. A ficção se mescla à biografia: homenagem de VM a VW.

Dizem que a literatura é antropofágica; ela se alimenta de si. O escritor norte-americano Michael Cunningham, também inspirado em “Mrs. Dalloway”, presta seu tributo a VW com o romance “As Horas”, que lhe rendeu um prêmio Pullitzer. À luz dos problemas dos anos 90, ele introduz a escritora no universo de mulheres de diferentes gerações em seus questionamentos sobre a vida, o feminino, a literatura . Outra homenagem.

O cinema, arte que às vezes busca parceria com a literatura, transformou “As Horas” no bonito filme homônimo dirigido por Sthefen Daldry . Ele escolheu Nicole Kidman para viver VW, um dos nomes seminais da literatura modernista. Despertada por seu contemporâneo, o irlandês James Joyce, que em romance volumoso retratou as 24 horas de um Ulisses do século XX, ela desenvolveu nova forma de contar histórias, onde o enredo passava a ser secundário. Aboliu a linearidade para buscar no âmago dos personagens sentimentos, sensações, imagens, dúvidas, ânsias, conflitos e todas as inquietações de alma que nunca são emparedadas pelo tempo.

Isso também vem fazendo VM na sua já alentada carreira de escritora. No livro em foco, ela se aprofunda ainda mais e inova ao salvar a protagonista de “Mrs. Dalloway” para lhe dar sobrevida em ”A filha de Mrs. Dalloway”. Mas quem é afinal essa mãe de prenome Clarissa? Entre outras qualidades, “a anfitriã perfeita, seu verniz civilizatório, sua dor secreta, alguma raiva” que “então, com o esforço dos séculos se levantaria erguida no melhor sorriso e voltaria à sala”- como a define em solilóquio Elizabeth, a filha. Assim, por via do monólogo interior e do fluxo de consciência, técnicas de difícil domínio e exploradas de forma magistral por VM, esculpem-se as criaturas e se constroem as 170 páginas do romance, por onde transitam o preconceituoso marido de Clarissa, Richard; a irmã escritora Virgínia; a excêntrica governanta alemã Ms. Kilman; e, claro, Elizabeth, o marido John, o filho Robert, a nora Ludmilla. Gerações de mulheres inquietas e complexas.

Liz, o outro nome da protagonista, é o eixo organizador do relato onde a vida se desdobra, mostrando que “ é um ato político em si mesma; pela rebeldia, pela revolução, pela omissão, pelo conluio com a loucura, pelo entreguismo, pela estética, a variada paleta do que era possível ser.” A filha de Mrs. Dalloway, londrina fruto da elite, sente-se bafejada pelos novos ares do mundo, até tentou ser independente numa carreira acadêmica, mas foi refreada em seus desejos pelo pai e pelo marido; e bem antes disso por Ms. Kilman,” o avejão malfazejo sempre em si”- personagem perturbadora, na qual a romancista investiu com gênio, mantendo-a viva até á última página.

 

Elizabeth casa-se sem paixão, tem um filho ao qual não se apega, sofre com o machismo dos homens que a cercam, intriga-se com a sexualidade dos pais e a sua própria: “Então, olhava: um pai retrógrado higienizando o mundo sem poder dar conta da própria sujeira. Uma mãe que amara as mulheres, mas se sufocara na tradição, sem forças para enfrentá-la. O marido sem desejo.” (...) “ Liz nas suas perversões iniciadas em abusos na infância, presa às suas velhas. Que toda família tivesse porões, sempre lhe parecera muito claro. Que suas sombras incidissem sobre as vidas de modo tão destruidor, não.”

Mas sim, verá o leitor. Não apenas a sombra de sexualidades reprimidas. Ou da opressão do masculino sobre o feminino. Ou ainda a da cultura. Também a sombra da loucura e do suicídio, estigma familiar. Esses fatos, aliados a outras circunstâncias, deflagram em Elizabeth sofrimentos psíquicos de grande monta, que a levam a internações.

É a fim de celebrar um momento de sanidade que ela pede ajuda à nora Ludmilla para organizar uma festa no seu apartamento em São Paulo, onde a família vive há anos. Disso o leitor toma conhecimento já nas primeiras linhas. Entre os preparativos e a festa, emerge um espaço/tempo datado pelo registro urbano (Londres, São Paulo...) e pelas horas (11h50, 00h49...) que nomeiam fragmentos preenchidos com monólogos, raros diálogos diretos e muitos fluxos de consciência - a riqueza dessa obra que não se lê de uma vez porque cada uma das 160 páginas exige muito. Como deve ter exigido à autora, desentranhando de cada personagem emoções que só a sensibilidade aguda da escritora associada ao conhecimento da psicóloga seriam capazes. Sua competência em lidar com memória e tempo possibilita ao leitor refletir sobre esse continuum de que falou Bergson, escolhido para a página que precede o elogioso prefácio de Menalton Braff: “A duração interior é a vida contínua de uma memória que prolonga o passado no presente(...) Sem essa sobrevivência do passado no presente, não haveria duração, mas somente instantaneidade.”

No que se refere à forma, torna-se impossível, pela relevância da expressividade, não citar aqui o específico de uma escrita que já se tornou autoral há muito tempo. Vocábulos mais próximos da linguagem erudita, como “glaucos”. Frases com elipses - “ainda que as cartas, mesmo que as festas.” Registros de oralidade- “O monstro em si vezenquando se levantando arrasador e irrefreável”. Pontuação fora dos padrões - “Shelley fixou o olhar em sua boca e. E.” Comparações inusitadas- “Triste feito um cavalo-marinho.” Sinestesias- “perfume de maçãs verdes, nozes e cinamono no ar.” Intertextualidade: “Tu não te moves de ti.” Frases lapidadas como se por ourives: “Todas as coisas do mundo contêm a sua própria morte”; “O modo de ser do outro às vezes nos traz o pior.” É uma escrita que denota a paixão da escritora pela língua com a qual comunica seu rico mundo ficcional.

Estamos diante de uma obra da literatura brasileira de extraordinária qualidade, de cuja leitura é impossível sair como nela se entrou.