10 de julho de 2026
EFEITO

Casamentos despencam 55% em Franca na quarentena


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A corretora de seguros Michelli Martins Ricotta Jardim, 32, e o salgadeiro Igor Felipe Jardim Sander, 28, adiaram a festa de casamento para abril do ano que vem

A corretora de seguros Michelli Martins Ricotta Jardim, 32, e o salgadeiro Igor Felipe Jardim Sander, 28, se conhecem desde a infância. Começaram a namorar em 2014 e em maio do ano passado decidiram que iriam tornar real o grande sonho de se casar. O que não imaginavam é que a celebração da união dos dois, que foi construída durante uma vida inteira, teria de ser adiada por conta da pandemia do coronavírus.

O número de casamentos caiu 55% nos meses de abril e maio em Franca. A soma dos dois meses não dá o total de um dos dois de 2019. Em abril deste ano, apenas 76 uniões foram oficializadas nos cartórios da cidade, contra 185 no mesmo mês do ano passado. Em maio, foram 86 casamentos agora, contra 176 em 2019.

Nos três primeiros meses deste ano, antes do Covid-19, a quantidade de casamentos foi bem parecida com o do ano passado. Em março, o número foi idêntico: 129 nos dois anos. Mas de janeiro a maio deste ano, 563 uniões foram oficializadas em Franca, cerca de 30% a menos que o total de 792 casamentos do início até o dia 31 de maio de 2019.

As estatísticas do Portal da Transparência do Registro Civil, que reúne os dados de todos os cartórios civis do Brasil, porém, apontam os números dos casais que foram aos cartórios e assinaram as certidões de casamento. Mas, obviamente, não há indicativos das celebrações.

Cerimônia, festa, lua de mel? Nada disso fez parte da realidade nestes últimos meses de quarentena. Se o casal for consciente e obediente às regras de isolamento, os 162 casamentos realizados nos dois últimos meses em Franca ficaram apenas na assinatura. Caso de Michelle e Igor, que oficialmente já estão casados. “Já nos casamos no civil, não tinha como adiar”, disse a noiva.

A cerimonialista Laís Junqueira, da Prefácio Cerimonial, que atua em Franca desde 2014, diz que, antes da pandemia, realizava de três a quatro eventos por mês e, agora com a quarentena, as festas foram reduzidas a zero. Até os atendimentos a futuros noivos caíram.

“Os clientes estão, sim, receosos. Não só com os adiamentos, mas no geral: em remarcar e não ter o planejamento financeiro programado, a incerteza de como será o retorno e a estabilidade”, disse Laís.


Incerteza
Michelle e Igor não se casariam por esses meses. O casamento estava marcado para o dia 6 de setembro. A prudência falou mais alto e os noivos decidiram adiar a cerimônia. A incerteza do futuro financeiro deles, dos familiares e convidados pesou na decisão.

A noiva diz que, no final de março, quando começou a quarentena, a decisão foi tomada. “Minha sogra ficou desempregada. A fábrica de calçados em que trabalhava demitiu todos os funcionários. Meu noivo, por trabalhar com comércio, ficou uns dias em casa. A pastelaria onde ele trabalha não abriu. Ficamos com medo, pois temos muitos contratos fechados. Ficamos com medo de ele perder a renda e a gente não conseguir arcar com os compromissos.”

Michelle acredita que em setembro a população estará começando a se reerguer da crise causada pela pandemia do Covid-19. Não será época de festa. Será tempo de reconstrução, acredita. “Outro fator que nos levou a tomar essa decisão foi que, em nossas famílias, a maioria das pessoas é autônoma (sapateiros e trabalham em casa). Eles ficaram sem trabalho, em uma situação financeira difícil. Como teria clima para fazer festa?”, pergunta.

“As pessoas, para irem a uma festa, gastam com roupa, presente. E, em setembro, acreditamos que tudo estará voltando ao normal, estaremos saindo desta crise e os convidados não poderão ter este tipo de gasto. Eles estarão colocando sua vida financeira em dia... Terão outras prioridades. Então, fazer uma festa, onde os convidados não se sintam confortáveis em ir, não é viável”, afirma Michelle.

Quando tudo estiver bem e a celebração for possível, entre os convidados estarão tio Fernando e tia Filomena, o elo desde a infância do casal. São tios de Michelle e padrinhos de Igor.

Como querem se casar ao ar livre, Michelle e Igor escolheram abril de 2021 como o novo mês. No dia 3, finalmente, dirão o “sim”.

Contratos
De tudo o que uma cerimônia de casamento pede, Michelle e Igor já tinham confirmado tudo. Até os convites. “Mas não tinham sido impressos... Sorte! (risos)”, brinca a noiva. “Os fornecedores se empenharam em conseguir uma nova data, onde todos estariam disponíveis. Todos foram bem compreensivos”, diz a noiva.

Além da data, por conta da agenda dos fornecedores, o casamento mudou de um domingo para um sábado.

O adiamento, diz ela, foi “um pouco triste”, mas não foi um problema. “Apesar disso tudo, nosso sonho apenas foi adiado. Não foi cancelado em nossos corações. Tenho certeza de que quando acontecer, será muito melhor. Celebraremos o amor e a vitória contra o coronavírus.”

O outro lado da festa 
A cerimonialista Laís Junqueira diz que o setor de eventos foi o primeiro a sentir os efeitos da crise causada pela pandemia do coronavírus. “Fomos os primeiros a parar e, sem dúvida, os últimos a retornar. Para muitos de nós, é a única renda.”

Ela lembra que a cadeia de eventos é muito grande. Emprega diversos free-lancers, como floristas, garçons, auxiliares de recepção, som... “Até entendo que a saúde é mais importante, mas tem tanta notícia falsa e tantas notícias de uso do dinheiro público sendo desperdiçado que gostaríamos de um respaldo das autoridades.”,, diz a cerimonialista, que lamenta a falta de um apoio específico para o setor.

Laís acredita que até o mês de outubro o mercado de festas seja reaberto. A esperança é algum tipo de retorno do governo, seja ele municipal, estadual ou federal, que arrecadam impostos com os eventos.

Que até lá, a fé e resiliência da noiva Michelle sejam possíveis a todos. “A sensação que fica disso tudo é que, por mais que você planeje, imprevistos podem acontecer e temos de ser flexíveis. Temos de priorizar as pessoas que amamos, temos de protegê-las e aceitar que o controle de nossas vidas está nas mãos de Deus. Vai ficar tudo bem!”