Essa é a história de um homem que andava sempre olhando para o chão em busca do que os outros perdiam por aí. Vivia sozinho e tinha os bolsos cheios de quinquilharia. As noites passava enamorado de seu tesouro disperso, iluminado à luz de velas.
Certo dia bateram à porta, era um jovem perguntando se ele não teria encontrado uma chave que perdera:
_ Foi a velha da esquina quem disse que o senhor enxerga por 2.
O homem tinha encontrado 3 chaves e o jovem levou-as prometendo devolver as que não servissem. Não voltou. Passaram-se os dias.
Bateram novamente à porta, nessa porta onde ninguém procurava nada. No lugar do jovem, uma mulher que tinha perdido um dos brincos. Ela trazia as duas chaves que não serviram ao rapaz e as devolveu.
A fama desse homem que encontrava coisas perdidas se espalhou pela cidade e ele, de imperceptível, passou a ser notado.
Muitos dias se passaram, muitos o procuraram. Até que (toc, toc, toc) outra mulher pediu ajuda:
_ Ando distraída, perdida entre as horas e os dias, procuro o juízo que um dia tive. Desconfiado da insanidade, o homem dispôs-se a acompanhá-la. O barulho do seu sapato lembrava as batidas na porta (tac, tac, tac).
Acontece que os caminhos por onde a mulher procurava o juízo perdido eram diferentes dos caminhos que o homem percorrera sempre de olhos fixos no chão. De modo que, aos poucos, saíram da cidade e ganharam os bosques, as fazendas e as colônias tortas sopradas por brisa suave. Aos poucos o ritmo dos passos da mulher insana tornou-se íntimo do coração solitário (tuc, tuc, tuc). Muito procuraram. Passaram meses juntos.
Então, certa manhã no início da primavera, abaixado ele gritou:
_ Achei!
O homem estendeu a mão oferecendo o achado. Mas não foi o juízo dela que ele encontrou. Esse que encontrava coisas perdidas estende a mão e oferece a primeira flor da estação.
Daquele momento até hoje caminham juntos. Sem juízo e perdidos.
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Esse texto pertence à série EU RECONTA, um projeto literário em que reconstruo narrativas que me inspiram. Mantendo os elementos originais, acrescento contornos particulares. De tanto procurar é um conto de Marina Colasanti no seu livro Do seu coração partido.