07 de julho de 2026

FRIDA


| Tempo de leitura: 3 min

Julho de 2004, cinquenta anos após sua morte, Frida Kahlo nascia na minha vida. Revistas e jornais passaram a limpo, na época, a curta e atribulada trajetória de 47 anos da pintora mexicana, à guisa de comemoração. Na época, ela não tinha grande visibilidade, não era tão conhecida, nem louvada, muito menos endeusada pela mídia nacional ou internacional quer como artista, quer como mulher. Abordagens, opiniões, relatos lidos e vistos nas reportagens daquela ocasião montaram no meu imaginário o perfil da artista que, mais tarde, eu procuraria conhecer melhor, descobrir, desvendar e acompanhar. Minha simpatia por ela, que nunca se deixou misturar com exacerbada louvação ou admiração incontestes, pois que mascaram a verdade - jamais se confundiu com comiseração, pena ou dó, embora tivesse conhecimento e pudesse avaliar seu sofrimento provocado pelas dores físicas e morais que sofria e deviam ser lancinantes. Daqueles relatos trazidos pelas reportagens dos mais diversos escritores porém, aos poucos extraí detalhes que me permitiram formatar a personalidade da mulher que eu viria a admirar tanto. A descrição do acidente que a deformou, coincide com os relatos que ouviria dos guias turísticos, e leria no material abundante que existe sobre ela, na Cidade do México. Diz a lenda que ela saía da escola. Momentos antes vira Rivera ao longe (já consagrado como artista) trabalhando um mural. Voltava para casa, quando o autobus atravessou a frente do bonde onde estava. Momento de puro terror. Referência dantesca, ela havia ganho tintas especiais de pintura para usar nos seus trabalhos, estava a abrir os pequenos pacotes para apreciá-las justo no momento em que atingida, teve a coluna rachada; foi dantescamente empalada; seu útero duramente atingido e, embalde todo seu esforço e tratamentos, por causa desse ferimento nunca conseguiu ser mãe, sonho de sua vida. As tintas esparramaram com o choque, ela foi coberta pelo pó colorido e a mistura dourada, motivo de sua excitação pela raridade. Coberta por inteiro, foi transformada numa estátua atemporal e estranha, de ouro e sangue. Essa mistura de referências, essas cores fortes, marcam o exato momento da eclosão da minha paixão por Frida Kahlo, que se chamava Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderón, nascida em 6 de julho de 1907, na Casa Azul em Coyoalcán, morta em 13 de julho de 1954, na mesma casa. Dizia ter nascido em 1910, para fazer coincidir a data de seu nascimento com a da Revolução Mexicana. Profundamente ligada ao México, cria sua obra apoiada em retratos, autorretratos, temas inspirados na natureza e nos artefatos mexicanos. Até 1970 seu trabalho permanecia relativamente desconhecido, quando reaparece em grande estilo na história da arte mexicana e se transforma em ícone para Chicanos, para os movimentos feminista e o LGBTQ. Ela nasceu num mundo cheio de mulheres, mas tinha preferência por seu pai, de quem se manteve sempre próxima. Ele era sua companhia quando, com seis anos, contraiu poliomielite, doença que marca série de tristes acontecimentos que comprometeriam sua saúde e integridade fisica e a fez ganhar o maldoso apelido de “Frida, Pata de Palo”. Daí ter optado por se vestir primeiro, com calças masculinas, depois com longas e exóticas saias. Mãe religiosa e castradora, pai compreensivo e incentivador de suas excentricidades, Frida casou-se com Diego Rivera, ele sim, grande e consagrado artista nesta ocasião. Passaram a disputar na arte e na vida. Ora moravam juntos na casa hipermoderna hoje chamada Museo Casa Estudio Diego Rivera Y Frida Kahlo, em Sán Ángel - construção composta de três casas estúdio, laboratório fotográfico e garagem - ora se separavam. Ora ela o traía - com homens e mulheres; ele jamais perdeu oportunidade de traí-la, constantemente, sem importar com quem fosse... Ele é reverenciado desde sempre. Ela ganhou fama e notoriedade apenas depois de sua morte. Poucos dias antes de morrer, ela escreveu em seu diário: “Espero que a saída seja alegre e espero nunca mais voltar.” Viva, era conhecida, principalmente no México, como “esposa de Rivera”. Muito tempo depois de sua morte, no mundo todo, Rivera é que é referendado como marido de Frida Kahlo...