“Para alguma coisa servem as adversidades”. Essa frase é um provérbio encontrado em vários idiomas. Derivado como todos da observação popular, no caso do Brasil a tragédia que tem sido a pandemia desvelou realidades que pareciam um tanto obscuras.
Com ela ficamos sabendo, só para citar dois exemplos, de coisas que nos deprimem como nação. Há um milhão de brasileiros que não existem oficialmente porque não têm certidão de nascimento. Eles permanecem no silêncio da extrema pobreza dos rincões remotos. E há um gigantesco batalhão de brasileiros urbanos que gritam impropérios na internet e não lembram nem de longe o homem cordial de que um dia falou o sociólogo. O Brasil é vário, dizem os sociólogos. O País é feito por nós, esbravejam os patriotas. Precisamos desatar esses nós, escreveu o Barão de Itararé.
Os brasileiros sem documentos permanecem no limbo da inexistência oficial. Não podem usufruir de nenhuns benefícios e são os que mais deles precisam. Eles me causam uma dolorosa sensação de impotência. Os brasileiros documentados, incógnitos em perfis falsos, ostentam grosseria abominável. Seu destempero é acintoso e sua maldade feroz. Eles me despertam indignação. É quando penso que além de CPFs, está faltando educação no Brasil.
De antemão aviso que não concebo educação apenas no sentido de acúmulo de saberes, pois estes se adquirem em qualquer momento neste século onde a tecnologia facilitou o acesso. Uso a palavra para expressar um fato da cultura, porque acredito ser urgente a consciência de que somos todos humanos e nossa jornada pelo planeta pressupõe mínima polidez a fim de que não nos tornemos os bárbaros que um dia fomos enquanto a espécie evoluía.
Quem nunca ouviu dizer que “educação vem do berço”? Educação começa em casa, no âmbito das boas maneiras, do respeito, da hierarquia, da condição de ouvir, da capacidade de tolerar frustrações. Parece acaciano, mas ensinar a dizer “muito obrigado”, “por favor”, “com licença”, “desculpe-me” pode fazer uma diferença enorme na formação de um caráter. Mostrar que palavras revelam a essência de quem as profere e as pesadas ofendem tanto ou mais que uma agressão física, é dever de educadores- pais e professores. As lições são diárias. Liberdade de um termina onde a do outro começa. Verdade é valor inegociável. Exemplo arrasta onde os conselhos emperram. Somos responsáveis por nossas escolhas. Insistir na ética, a partir das menores ações, representa reforçar o fato de que ela repousa no princípio universal de que não devemos fazer ao outro aquilo que não desejamos para nós.
Um presidente ( da República!) que não agradece a xícara de café que a copeira lhe oferece, nem a correspondência que o mensageiro lhe entrega, está cego para a existência do outro. Um ministro (da Educação!) que chama os ministros (do STF) de “vagabundos” e mente em relação a fatos históricos ignora o que seja respeito- aos outros e à civilização.
Para evitar que novas hordas comecem a se formar, deveríamos estimular também a leitura. Pela via da ficção, o convite para levantar voos e sair das platitudes. Pelo caminho da filosofia, conhecer a evolução do pensamento. Pelo estudo da ciência, preparar a mente para não cair na armadilha do negacionismo. O trajeto será longo. Victor Hugo, que Deus o tenha, já dizia: “Se quiser educar uma criança, comece pelos seus avós.” Trata-se de projeto de longo prazo.
Quanto ao futuro próximo, parece temerário. Porque em lugar de armar o povo com educação, o presidente deseja ardentemente fazê-lo ... com armas de fogo.