Perplexidade frente ao desconhecido. Dois dias para perceber que não era um sonho. Reação. União como forma de combater o “inimigo”. Humildade para reconhecer a imperfeição e fragilidade humana. Disposição para se desprender do “normal” e se abrir ao “novo”.
A empresária Luiza Helena Trajano, presidente do Conselho de Administração do Magazine Luiza, foi entrevistada pelo jornalista Corrêa Neves Júnior, em live na página do GCN, no Facebook e no Instagram, na noite dessa quinta-feira, 30.
A maior líder empresarial do Brasil analisou a pandemia do novo coronavírus, seus impactos no Brasil e em Franca, citou ações que vem tomando e apresentou propostas para que todos saiam melhores desta crise.
Mas antes, alertou: “Perto de um vírus que a gente não sabe o tamanho, todo o resto é picuinha, é coisa pequena perto do problema”. Para Luizinha, mais do que nunca, o momento é de união.
O primeiro impacto
“Fiquei dois dias anestesiada, assustada, achando que fosse um sonho”, disse a empresária sobre o início da pandemia do novo coronavírus no Brasil. Ela contou que esteve na Alemanha, em janeiro, quando foi inaugurar um núcleo do Mulheres do Brasil, grupo civil apartidário que preside. Aproveitou para visitar uma feira de presentes. Não havia chineses, mas naquele instante ela não deu muita atenção para o fato de a ausência dos asiáticos estar ligada ao Covid-19.
Já no Brasil, em março, Luizinha estava em Franca quando as primeiras medidas de isolamento social começaram a ser adotadas. “Não voltei mais para São Paulo... Foram mil lojas fechadas (do Magazine Luiza). É assustador o que o vírus está fazendo.”
Ela lembra que o Covid-19 afetou a todos, mas os impactos são totalmente diferentes. “Quando você vê Nova York, a terra do consumo parar, é porque a tempestade pegou todo mundo. A diferença é que alguns estão em iates, outros em barcos bons, outros em barcos mais ou menos e a maioria da população está sem barco, sem colete, sem nada.”
Lições
A empresária diz que a pandemia criou uma situação para que a humanidade reflita. “Esta situação é para se pensar. O tanto que a natureza está agradecendo (a queda na atividade em todos os setores, com menos trânsito, poluição)... Então, a primeira lição que fica é aprendermos a lidar com nossa importência e pensarmos que ninguém tem nada, você ‘está de’: está de poder, está de dinheiro...”.
Para dimensionar o impacto do coronavírus no mundo, ela lembrou da organização das Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. “Fui do Comitê das Olimpíadas de 2016 e sei o que é preparar por cinco anos um evento que reúne o mundo todo. Você tem de pensar no cardápio de cada país, como cada país vai comer, porque alguns não podem comer na frente dos outros. E, de repente, o Japão adia as Olimpíadas por um ano! Não é brincadeira, é muito grave, não é para arriscar.”
Um novo mundo
Para Luizinha, o mundo nunca mais será o mesmo e quem aceitar este fato irá se adaptar melhor ao novo. “A normalidade não vai voltar, será uma nova realidade. A gente vai dar muito mais valor aos beijinhos automáticos. Os escritórios não vão ser mais iguais. Os apartamentos de 30 metros quadrados em São Paulo, para solteiros, não serão mais os mesmos. Eles terão espaço para home office. O executivo não vai sair de São Paulo para o Rio de Janeiro, (apenas) para fazer uma reunião... Será uma nova realidade que vai se misturar com as coisas boas de agora.”
A empresária ressalta que o coronavírus obrigou todos a fazer um uso cada vez maior de ferramentas virtuais e, como estas se mostraram eficientes, as relações corporativas, de negócios, nunca mais serão como antes. “Depois de tudo isso, as pessoas vão evitar o trânsito.”
Sobre o comércio varejista, ela diz que comemorou o avanço forçado de parte das empresas que ainda evitavam a internet. “Você acha que as lojas não vão ter uma área digital, como eu sempre lutei? (Agora) eles aprenderam a vender no digital. Não que as lojas físicas vão acabar, mas será uma nova realidade.”
E deu um conselho a todos: “Prefiro achar que nada vai ser igual e me abrir para uma nova realidade, a achar que tudo vai ser igual e não me adaptar a uma nova realidade”.
Política e economia
Indagada sobre a atuação dos governantes brasileiros e a disputa política em plena pandemia, Luizinha se disse profundamente entristecida. “Fico triste por, neste momento tão grave, a gente perder dois dias para ver quem tem razão. O problema é muito grave, não é momento para ter razão, é momento de nos unirmos”, disse ela, se referindo à saída do então ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, do governo de Jair Bolsonaro (sem partido).
Sobre a polêmica entre Bolsonaro e governadores de Estado a respeito das quarentenas e as repercussões desta discussão entre empresários e população, Luizinha foi enfática: “A gente tem de parar de reclamar. Eu também queria trabalhar, mas se você ficar doente ou deixar alguém doente, é pior. Não adianta querer sair da quarentena, porque quando começou essa discussão, já estávamos em quarentena. Então, é preciso pensar em como sobrevier na quarentena. É preciso se reinventar”.
Ela defende que governos e população se unam para enfrentar o vírus e suas consequências econômicas. “O que não vai virar esse país (se continuarem essas picuinhas)? As pessoas passando fome... É muito grave.”
Medidas econômicas
Luizinha defende uma ação firme do Governo Federal para recuperar a economia. “Numa situação de guerra, a União tem que colocar dinheiro, independentemente de déficit, de qualquer coisa.”
Ela reconhece que o Governo Federal tem atuado, com medidas para amparar empresários e trabalhadores, e diz que o que importa agora é a ajuda sair rapidamente. “Minha luta é fazer esse dinheiro chegar aos empresários e trabalhadores.”
Franca agora
A empresária diz que estava esperançosa para a reabertura do comércio, mas que agora, com a disparada dos casos positivos de coronavírus em Franca, o momento é de cautela. “Estava muito tranquila com Franca até ontem. Mas agora temos de aguardar mais uma semana. Abrir agora para depois fechar é pior.”
Ela lembra que as lojas abertas e sem movimento custam mais aos empresários. Mas a preocupação maior, defende, deve ser a saúde. “Eu posso falar que esse vírus não é nada, e pode não ser. Mas estou vendo pessoas morrendo. Por isso, temos de respeitar esse vírus que a gente não conhece.”
Luizinha disse também estar preocupada com o grande movimento de pessoas nas ruas de Franca. Contou que suas filhas moram na Europa – uma em Portugal e outra na França. No primeiro país, a quarentena foi mais rígida e a pandemia, menos grave. Já a França, com as medidas tomadas mais tardiamente, converteu-se num dos países que mais sofrem com o Covid-19.
Apesar de evitar dizer que tipo de isolamento apoia como medida para enfrentar o vírus, Luiza Helena reforçou que o ideal é permanecer em casa para verificar como a doença evolui na cidade. “Quando chega ao pico da disseminação do vírus, é muito grave, porque o número de infectados se multiplica por sete. E os hospitais de Franca não vão aguentar. Por isso, estou pedindo para o povo aguentar (o isolamento).”
Franca no futuro
A presidente do Conselho de Administração do Magazine Luiza também se disse preocupada com a situação econômica de Franca e pregou a união de todas as lideranças da cidade. “Temos que estar muito unidos em Franca. Como fizemos com o basquete - unimos amigos, inimigos, imprensa e ressuscitamos o basquete. Temos de fazer (o mesmo) com o calçado, com nossa indústria.”
Luizinha disse estar “muito preocupada” com a situação econômica de Franca e o fechamento de milhares de postos de trabalho na cidade. “Vamos pensar no melhor, no grande, e tirar Franca desta situação.”
Assista a entrevista completa clicando no link.