Liguei no sanatório mais próximo
Disseram que estava tudo ótimo
Melhor do que com os homens de negócio
Lá daquele troço
Enfim, cheguei em casa
Nem saí, quer dizer
Fui ali
Na sala
Brigar com o marido
Ver o vizinho da janela
Bater panela
Abrir a geladeira
E ver o que tem no fogão
Lembrei-me que era boa das vistas
Não acreditava em encarnação
Sujeira na parede
Odor de sabonete
Broche de ametista
Nem sabia que carregava uma lupa
A tiracolo
Pau pra toda obra
Que transforma choro em rio
Raiva em puta que pariu
Descontrole em “a casa caiu”
Descobri no fundo do baú uma ampulheta
Enferrujada que só ela
Coloquei na cabeceira da minha cama
Para ver se o tempo de cima escorre logo pra baixo
Nada, nadica, nem uma virgulinha
Pera, parece que uma partícula de areia desceu
Passaram-se 40 dias ou foram dois anos?
Que ampulheta desgraçada
Encurralou meu tempo dentro de casa
O que mais ela quer de mim?
Chega de descobertas
Quanta tempestade num copo d´água
Posso ao menos descer as escadas
Ou tenho mais alguma tralha para encontrar?
Basta, não me venha com chorumelas
Uma bússola estragada
Tira isso da minha frente
Eu não tenho cabeça de demente
Pelo amor de Deus
Me leva pra casa
Tô perdidinha
O quê, a minha casa é aqui?