08 de julho de 2026

Aplausos


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Dentro de casa, por conta da quarentena, não me lastimo nem me estresso. Por enquanto mantenho a saúde e busco fazer coisas que me deem prazer. Navegar, por exemplo. É quando descubro que alguns dos grandes museus do mundo, em respeito ao isolamento, disponibilizam parte de seu acervo aos internautas. Foi assim que vi a exposição “pintores e médicos”, com vinte telas. Meus olhos se fixaram em quatro- Goya, Van Gogh , Toulouse Lautrec e um anônimo.

Goya, hemiplégico por conta de um AVC e em processo de perda de audição, reconheceu “o zelo ” do médico, que dele cuidou por décadas, através da tela “Retrato do Dr Arieta”. Van Gogh , procurando ajuda para seus transtornos mentais, encontrou num especialista “o amigo, o irmão”, a quem agradeceu com o famoso “Retrato do Dr. Gachet”. Toulouse Lautrec, portador de doença que o impediu de crescer e lhe acarretou deformidades, recebeu cuidados físicos e escuta atenta do protagonista do “Retrato do Dr. Henri Bourges.” Arieta, Gachet e Bourges foram imortalizados por seus pacientes célebres.

A quarta tela é de autor anônimo, circa 1370. Mostra um médico entre pacientes infectados. Foi a que mais me impressionou, talvez porque vemos as coisas como somos. E nestes dias tenho sido só comoção em relação aos médicos que trabalham nos hospitais do mundo inteiro, duelando com o Coronavirus, correndo riscos como este da pintura medieval. Nela, moribundos em catres ou no chão nu recebem atenção do homem paramentado com vestimenta escura, botas e luvas negras, máscara com bico de pássaro. A peste negra assola a Europa e deixará milhões de mortos.

Até o advento da fotografia as pinturas imobilizavam momentos da história. Fato diferente perfila nosso tempo, repleto de imagens que se substituem umas às outras em tal velocidade que mal damos conta de acompanhar. Se na Idade Média as notícias custavam a chegar, vemos hoje instantaneamente o que acontece do outro lado do globo. A revolução tecnológica nos trouxe essa responsabilidade- a de sermos testemunhas de todas as latitudes.

E como ser humano do século XXI, vejo o avanço da Covid-19, o temor dos lúcidos, o destemor dos ignorantes, a irritação com a quarentena, os números alarmantes de mortos, a falta de vacinas e remédios, de máscaras e respiradores. Mas também o trabalho dos profissionais que estão dando tudo de si, nos hospitais do planeta alcançado pelo vírus maligno. Muitos deles morreram contaminados por pacientes; outros ficaram doentes mas tiveram a sorte de se recuperar e até voltar ao trabalho; centenas se cadastram para ajudar se for necessário. São heróis modernos, enfrentando inimigo letal . Merecem consideração, respeito, reconhecimento, principalmente gratidão pelo que estão fazendo pela humanidade.

Gostaria de estar junto de todas aquelas pessoas que tenho visto na TV, em sacadas de prédios, ao entardecer, em pontos vários do mundo. Elas aplaudem médicos, enfermeiros, técnicos, profissionais da saúde alçados neste momento à estatura do herói. Eles pelejam para vencer o inimigo e rechaçar a morte, trazendo esperança a este nosso mundo flagelado. Na Páscoa, não há maior vivência que esta luta concreta pela Vida.