08 de julho de 2026

Fantasias


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“No palco, durante o show na boate aquela noite, eu arrasei. Meu corpo gritava, o glitter vermelho espalhado nas minhas pernas, braços, virilha, seios e costas fazia parte de mim. Parecia ter nascido com ele, destinada a brilhar e encantar. À noitinha, em casa, ao me preparar, lembrei do kit que você me trouxe da sua viagem que eu nunca farei - àquela cidade do imenso relógio e cheia de glamour nas ruas... Pelo menos em vida! A tiara com os dois chifrinhos, linda! As meias arrastão. O batom da Mac, Ruby Woo, que me deslumbrou, aquele que você tirou da nécéssaire para me mostrar, e me deu porque viu o olhar de cobiça que lancei para ele... Tirei cada peça do pacote lindo, como num striptease. Minhas colegas acompanharam e soltavam gritinhos de excitação, enquanto eu exibia cada item. Quando tirei o boá de penas vermelhas do pacote, elas foram ao delírio! Aí, me ajudaram a terminar a depilação dos espaços do corpo que não alcanço, colocar o emplastro corretamente. Fiz a maquiagem, inspiradíssima! Apliquei as lentes verdes; a base no rosto que cobriu todos os poros abertos pela extração dos últimos pelos. Sombras. Parecia que era noiva naquela preparação esmerada. Tem hora que acredito em premonição! Era como se eu antecipasse que algo incomum me aconteceria, juro! Coloquei a calcinha do biquíni preto, alinhei meus seios no pequeno sutiã, as meninas me passaram o pó brilhante vermelho pelo corpo. A peruca não queria parar no lugar - tivemos que fixá-la com cola quente, acredita? Doeu, mas funcionou. Coloquei a tiara com os chifrinhos em cima do coque, peguei o boá. Estava frio, mas meu coração estava fervendo... Fomos para a boate, do outro lado, no lado escuro da cidade. Entrei pelas coxias, elas pela porta da frente. Atravessei corredores, cheguei ao camarim improvisado. Nem esperei, me avisaram que era minha hora. Entrei. As luzes me cegaram por um instante, ouvi vozes e gritos de recepção. Pela entonação, percebi que agradara. Cantei, dancei, rebolei, dublei ... só para aquele par de olhos que acompanhavam cada movimento meu. O bofe era ma-ra-vi-lho-so, eu nunca o vira antes. Nunca vi alguém tão lindo! No final, discretamente colocou um cartão no cantinho do placo. Tinha o nome dele, número de telefone anotado a mão e o recado: “Me ligue!”. Ordem, que tratei de cumprir. Queria se encontrar comigo. Devia esperá-lo montada, igualzinha, às vinte e duas horas do dia seguinte, em minha casa, cujo endereço pedia. Hesitei o dia inteiro. As meninas vieram e me aconselharam: nada de romantismo, sua boba! Se ele quer aproveitar, aproveite mais que ele. Não é sempre que uma coisa dessas acontece. Repetimos o processo do dia anterior, com mais esmero, até. Às onze, como prometido, ele tocou a campainha. Abri a porta, aquele deus entrou. Foi a noite mais espetacular da minha vida. Eu fui rainha, amada, desejada. Amanhecia quando ele saiu, deixando-me exausta e prometendo me ligar breve, tão logo voltasse de viagem. Nunca mais falei com ele. Quero acreditar que foi morto, que morreu chamando meu nome. As meninas não falam dele. Às vezes penso que sonhei. Que foi tudo uma fantasia.”