08 de julho de 2026

Falta compaixão


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Desaconselhando movimentos de rua, mas participando deles, o presidente da República deu sinais de esquizofrenia e demonstrou total indiferença à dor alheia, manifestação inequívoca de ausência  de empatia

 

O número de mortes e a expansão do Covid-19 já estavam assustando o mundo desde janeiro quando, no começo de março, o presidente Jair Bolsonaro manifestou-se pela primeira vez sobre a pandemia. Estava em Miami no dia 9 de março quando citou o vírus como um dos fatores que tinham contribuído para a queda da Bolsa e dos indicadores econômicos do Brasil, opinando que o poder destruidor do vírus estaria sendo superdimensionado: “Muito do que falam é fantasia, isso não é crise”. Veio a declaração de pandemia e ele continuou a minimizar o impacto: “Outras gripes mataram mais do que essa.”

O retorno da comitiva brasileira marcou o primeiro caso de coronavírus no governo; depois vieram mais dezesseis. Medidas de segurança foram adotadas no Planalto, e o presidente voltou a falar sobre o Covid-19, desta vez em rede nacional. Ao lado do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, ao ser indagado sobre o perigo de uma manifestação pública que estava sendo preparada para o dia 15, frisou que “uma das ideias é adiar e suspender para daqui um ou dois meses.” Mas bastaram 24 horas para que, contrariando a própria fala e a recomendação de seu ministro, ele se juntasse à aludida manifestação.

 Diante da reação negativa verificada nas redes sociais, na segunda-feira chamou de “extremismo” e “histeria” medidas adotadas diante da pandemia, como o fechamento de lugares com alta aglomeração de pessoas, a suspensão de atividades escolares e a proibição de jogos de futebol. No mesmo dia, fez mais uma declaração minimizando a epidemia: “Que vai ter problema vai ter, quem é idoso, (quem) está com problema, (quem tem) alguma deficiência, mas não é tudo isso que dizem”.

Esse comportamento esquizofrênico, marcado por ações desconectadas e contrárias, não passou despercebido aos brasileiros mais atentos, inclusive parte da classe média que elegeu Bolsonaro por se opor veementemente a Lula. O jurista Miguel Reale Junior manifestou inquietação com a saúde mental do presidente e sugeriu que ele fosse submetido a uma avaliação psiquiátrica. Nomes expressivos da medicina, da biologia e do sanitarismo assinaram artigos contra as atitudes de Bolsonaro. Um panelaço na noite de 17 de março, em cinco capitais, quando o País contabilizava a primeira morte e o crescimento alarmante do número de suspeitos, sacudiu o presidente e seus apoiadores. Outros dois aconteceram na tarde e noite de quarta-feira. Nesta mesma noite, um panelaço a favor de Bolsonaro, bem menor que os anteriores, mostrou que a popularidade de presidente estava caindo.

A próxima medição de popularidade vai indicar como o povo está encarando o comportamento do presidente da República, que denota clara insensibilidade ao sofrimento alheio e incontido aborrecimento com as medidas adotadas pelo ministro da Saúde, que visam a manter as pessoas em quarentena, o que naturalmente vai abalar a economia. Ou seja, entre a vida das pessoas e a economia, o coração do presidente nem balança. Ele fica com a última. Vamos ver a que preço.


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