O movimento da vida pode ser contado de várias formas. A mais comum delas, os anos, tendo por marco, os aniversários. Foi o meu semana passada, e a despeito de um mercúrio retrógrado me sugerindo um passinho para trás, é pra frente que se anda.
Mas podemos contar a vida através da alimentação, do ralo líquido sacrossanto que o peito da mãe nos dá, passando pelas papas oferecidas a quem ainda não tem boca para se defender, para as primeiras refeições introdutórias da sociabilização. Acho que a refeição em família é um importante passo para a vida social.
Ou podemos ainda contar a passagem do tempo com a ajuda de um prato específico, algo que nos acompanhe desde sempre e que evolua, não necessariamente melhorando, mas se desenvolvendo.
Bolos são minha comida de conforto.
Olhando para o último bolo que recebi, esse mesmo, desse aniversário de 47 anos, paro para pensar em como eles bem podem representar a minha trajetória. Na minha infância, eles eram meu paraíso e inferno. Primeiro, eu não compreendia porque minha mãe não nos dava logo a massa crua para comermos, em vez de esperarmos pela eternidade de uns 40 minutos a 180 graus. Mas, respeitado o tempo, eu não me decepcionava, e o que via e saboreava era a própria felicidade. Penso ser desnecessário falar do cheiro. Guardo a sensação do forno irradiando calor nas minhas pernas, todas as vezes que eu entrava na cozinha na esperança de vê-lo pronto. Acho que gosto de todos os bolos que existem, mas num pingue-pongue comigo mesma, o de banana se apresentou na frente.
O da minha mãe era levemente solado. As bananas, sempre poucas, se resumiam a esparsas rodelas que causavam pequenas depressões na massa. Nem todas as fatias tinham bananas e, não raro, nossas fatias seguiam aqui, acolá, a trajetória das rodelas de bananas que deixavam uma marca côncava levemente arroxeada no bolo.
Quando consegui meu primeiro emprego, descobri uma lanchonete que ficava em frente a Chama Azul, no centro da cidade, que vendia um bolo de banana incrível. Ao invés de rodelas, fatias, ao invés de poucas, muitas e, ainda por cima, caramelizadas embaixo da massa. O caramelo, abundante, subia pelas bordas da massa que ficava molhada e doce.
Quando minha filha nasceu, a Santina me fez um bolo de banana, previamente caramelizada, cuja massa é só leite condensado, manteiga, ovos e um tantinho de farinha de trigo. Serve-se morno, acompanhado de sorvete de creme.
A primeira vez que tentamos, eu e meu marido, concluirmos uma caminhada de mais de 300 quilômetros, nós falhamos. Eu estava estropiada. Chegamos na pousada em Paraisópolis e uma solidária recepção trouxe até nós um bolo de banana caramelizada, com massa metade branca, metade de cacau.
Provavelmente, eu poderia fazer a relação com as mais diversas comidas. Mas me ocorreram as bananas. Nanicas, amarelas, cheirando a creme, com pontinhos pretos no centro, sempre baratas, acessíveis e brasileiras.