Tenho peregrinado, com professores, neste abrigo escolar chamado “Sala de Leitura”. Aí, professores tentam tornar atraentes livros - para gerações de olhos escravizados por celulares, tablets, TV, as “chupetas eletrônicas” oferecidas, com a função de, curiosamente, “sossegar”. Sossego mortífero para a família, para jovens, crianças, gerações...
Este uso nefasto da tecnologia, em si, maravilhosa, tem como consequência, grave, para a constituição social e psíquica das crianças, dos infantes (não falantes), que desconectam da vida, do olho-a-olho, dos afetos. Alguns se tornam desagradáveis, irritadiços, rudes.
Como modular afetos, sem companhia de seres humanos para acolhê-los, nomeá-los?
Máquinas maquinizam.
Muitas crianças não ouvem, pouco conversam hoje. Não aprenderam. Como podem se tornar permeáveis para professores, colegas - para o convívio humano?
Conheci o vendedor de bala em uma Sala de Leitura do Ensino Fundamental. Percebi no garoto franzino o pouco desenvolvimento - criança desnutrida de alimento e afeição. Arisco, rejeitando, violento, a minha aproximação física, como se meu toque fosse um ataque. Tagarelando, desdenhando minha presença. Atirou, rápido, as palavras: não gosto de ler. Para me acertar. Eu a perguntar... do que gosta?
- De vender bala.
Li no seu sofrido rostinho que ele não podia imaginar mundo diferente do que lhe estava imposto, do alto dos seus dez anos: luta pela sobrevivência, pau a pau, competição de quem é mais forte. A ideia violenta de que quem tem mais, manda.
Tinha comigo um sortido de livros, mas, atordoada, pensava: o que ler para alguém tão sofrido?
Li uma história, contendo a angústia. Depois, soube: o garoto foi intimado, judicialmente, a frequentar a escola. Mas, disse a professora, ele jamais entrou em sala de aula.
Antes de terminar a história, o vendedor de balas tinha desaparecido, nem foi à aula dia seguinte, me informou a professora .
Baleada fiquei.