09 de julho de 2026

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Governo federal quer avaliar fluência de crianças de oito anos através de gravação de leitura que será enviada ao MEC para medição e resultado

 

O Ministério da Educação (MEC) pretende lançar antes do Carnaval um documento, Tempo de Aprender, que entre outras coisas irá fornecer as linhas gerais para reformular o livro didático e avaliar a fluência das crianças do 2° ano do fundamental .

Como vem se tornando praxe no governo Bolsonaro, esta é uma decisão tomada de cima para baixo. Nenhuma das duas entidades que reúnem secretários de educação (municipais ou estaduais) foram consultadas na elaboração do programa, mesmo que dele constem os nomes da Undime (União Nacional dos Dirigentes Municipais em Educação) e do Consed (Conselho Nacional de Secretários de Educação).

É de se prever que o “teste de fluência”, tão logo o Tempo de Aprender seja divulgado, provocará questionamentos. Haverá quem duvide da afirmação de que “a fluência em leitura é um dos mais fortes indicadores de sucesso na alfabetização.” Educadores sabem na prática que, em se tratando de crianças, nem sempre as que leem melhor são as que compreendem bem o que leem. Muitas hesitam e demoram sem que isso represente ausência de construção do significado. Há áreas de intersecção onde processos cognitivos e afetivos marcam a diferença entre ler e compreender.

Como a intenção é realizar a prova por meio de gravação da leitura da criança e enviá-la ao MEC, que fará a medição e dará o resultado, o teste fica de antemão prejudicado, pois o simples fato de ler para um gravador pode representar uma pressão para o pequeno estudante. Os testes de fluência não são desconhecidos. Eles são usados em escolas onde a orientação se baseia no pressuposto de que a leitura é uma decodificação. Estudos internacionais referem uma expectativa de 60 a 150 palavras por minuto para crianças do 1.º ao 5.º ano. É defendido por alfabetizadores que privilegiam o método fônico, em que há ênfase para os sons das letras. E que, já demonstrou o presidente da República, é o seu preferido.

Estranha-se que o texto não cite a Base Nacional Comum Curricular, aprovada em 2017, referência para currículos das escolas do País. A BNCC afirma que crianças aprendem de diferentes maneiras e considera tanto a perspectiva construtivista, em que o aluno se apropria do texto, quanto a importância da consciência fonológica.

Estranha-se também que o texto fale em mudar o Programa Nacional do Livro Didático (que hoje tem uma rígida avaliação de títulos pelas escolas), abrindo caminho para escolher materiais alinhados à vertente que o MEC pretende seguir, excluindo outras. Ainda mais quando se sabe que, em dezembro, o governo Bolsonaro aprovou um decreto que permite à Secretária de Alfabetização do MEC a produção de seu próprio material, independentemente do PNLD, para ensinar a ler e escrever.


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