“O coração é território exclusivo dos Poetas e Cardiologistas. Entre nele com cuidado! Sob pena de estragar um poema, ou pior, derrubar uma ponte de safena.”
Poeta Cantadô
Situações cotidianas, sobretudo as mais chatas, vivem testando nossa paciência e humor. Pra quem tem estes, paciência e humor, em alta, mesmo o problema mais desgastante pode se transformar num belo “causo”.
E assim se foi e se fez com meu amigo, um renomado cardiologista. Finalizando uma reforma em seu consultório para adaptações à Lei de Acessibilidade, aproveitou o término de consulta de uma colega arquiteta e a levou para mostrar a obra e pegar sua opinião (sim, eles também fazem isso, rs).
Uma rápida visualizada em rampas, corrimões, etc e o olhar profissional da paciente detectou um problema: o banheiro para portadores de necessidades especiais era muito pequeno, pois segundo as regras o espaço teria de proporcionar a um cadeirante a possibilidade de um giro de 360 graus de sua cadeira de rodas para que, assim, entrasse e saísse sem ninguém precisar ir junto para ajudá-lo.
O restante do dia foi de preocupação para o doutor. “E agora?! Tudo pronto, a inspeção marcada....será que terei de refazer o banheiro?”
Eureka! Assim os gênios anunciam soluções e assim foi feito.
Dia de inspeção para liberação do alvará, um exigente fiscal a tudo vasculhava com “olhos de lince”:
- “Rampas, ok; corrimões, ok; banheiro.... Doutor, creio que este banheiro não atende às exigências mínimas de espaço que deve permitir à cadeira de rodas um giro de 360 graus, etc e etc...”
- “Acho que o senhor está enganado” – retrucou o médico - “por coincidência tenho aqui na sala de espera um paciente cadeirante que poderá demonstrar que este banheiro pode propiciar este tal ‘giro de 360 graus’ que o senhor tanto insiste.”
Com a anuência do fiscal, o paciente cadeirante foi convocado para que, sob os olhares de ambos, médico e fiscal, demonstrasse ou não a possibilidade do tal giro de 360 graus.
Ligeiro, entrou no apertado banheiro e, inclinando habilmente sua cadeira sobre as duas rodas traseiras, facilmente realizou o tal giro.
Diante das evidências o fiscal nada pode fazer a não ser assinar o alvará e o nosso doutor agradecer à sorte de estar atendendo os profissionais de um circo recém chegado à cidade, principalmente o equilibrista em sua cadeira de rodas...