08 de julho de 2026

Quero descer


| Tempo de leitura: 2 min

Deve-se reconhecer que o relacionamento humano está ficando mais complexo, chato, para não dizer entediante. Tudo o que se diz, ainda que de forma pueril e sem malícia, precisa passar pelo crivo do politicamente correto.

Se um jovem solteiro elogia a beleza e o bom gosto de uma jovem solteira, isso poderá ser interpretado como assédio, sujeitando-o até a pena de prisão e indenização por dano moral. Se a torcida chama, desportivamente, o árbitro de ladrão, ele poderá interromper a partida.

Se alguém brinca com um colega de trabalho, dependendo de como este interpreta a brincadeira (veja o grau de subjetivismo), o fato poderá dar causa a uma Reclamação Trabalhista, contra o empregador, ainda que ele desconhecesse o fato. O pior é que essas ocorrências, no ambiente de trabalho, eventualmente podem ser simuladas, visando extorquir o empregador, tudo com a chancela da Justiça do Trabalho, que em tais situações, acaba também sendo vítima do conluio.

Há que se ter cuidado também com a forma que se diz as coisas, pois dependendo de como foi dito, poderá ser interpretado como xenofobia, homofobia ou injuria racial. Nesse contexto, baniu-se do Direito Brasileiro, a saudável figura do animus jocandi, ou seja, aquilo que se diz sem intenção de ferir quem quer que seja, apenas como brincadeira, de forma jocosa.

Já se chegou a taxar Monteiro Lobato de racista, sem procurar interpretar a sua obra na época em que ela foi escrita, fazendo-se a necessária contextualização. Outros que estão sofrendo com os novos tempos são os humoristas, pois dependendo do teor da piada, eles poderão ter que responder a processo criminal.

Evidente que ninguém pode compactuar com a xenofobia, a homofobia, o racismo e a injuria racial. O que se condena aqui são os excessos interpretativos e o patrulhamento exagerado. Assim, nesse contexto, vejo-me no dever de parodiar a famosa música, clamando aos céus para o “mundo parar, pois eu quero descer”.

Aliás, à guisa de exemplo, Raul Seixas, levando-se em consideração o conteúdo de algumas de suas músicas, se vivo estivesse, provavelmente ele já estaria preso em alguma penitenciará de segurança máxima.


Setímio Salerno Miguel
Advogado Empresarial e Professor da Faculdade de Direito de Franca