Por ter ousado falar nas redes sociais sobre o novo vírus, um jovem médico foi advertido pelo governo comunista de estar “espalhando rumores on line”.
Caso os órgãos chineses responsáveis pela saúde pública tivessem ao menos tido dúvidas sobre o relato do médico Li Wenliang, a respeito de um surto causado por aquilo que ele considerava um novo vírus, é possível que a epidemia de Coronavirus, que já contaminou mais de trinta mil pessoas e matou cerca de seiscentas, pudesse ser combatida antes do reconhecimento oficial, quando se tornou impossível ocultar do resto do mundo o que se passava em Wuhan.
Mas a China, aberta à economia de mercado, continua hermeticamente fechada no âmbito político. Por isso, os cidadãos são vigiados de muitas formas, e uma delas, na internet. Fazer uso de redes sociais exige cuidados, pois falar de algo que incomode à manutenção do sistema pode representar desgraça para um cidadão. Foi o que aconteceu à Li Wenliang, 37, oftalmologista, casado, pai de uma criança de cinco anos e de outra prestes a nascer. Escrever sobre o perigo representado pelo vírus, àquela altura não identificado, lhe custou uma reprimenda por parte do governo de Wuhan. Ele foi acusado de “espalhar rumores online” e de “perturbar seriamente a ordem social”. Ainda sofreu a humilhação de prestar depoimento à polícia local.
Entretanto, ao alertar no começo do ano sobre o que estava presenciando no hospital em que trabalhava, demonstrava estar correto na sua avaliação, trinta dias antes do anúncio oficial que determinou quarentena na cidade de onze milhões de habitantes. Ironia do destino, como a provar a veracidade de suas palavras, Wenliang acabou contaminado ao tratar um caso de glaucoma em paciente infectada de quem cuidava há algum tempo. Ele morreu quinta-feira , em decorrência do Coronavírus, depois de internação que se estendia desde 12 de janeiro. Seus pais, também contaminados, continuam hospitalizados.
Sua morte repercutiu por toda Wuhan nas primeiras horas do anúncio; depois foi desmentida pelos aparatos oficiais, mas finalmente confirmada pelo hospital e familiares.
A Organização Mundial da Saúde lamentou a morte de Li. “Nós estamos profundamente tristes com a morte do Dr. Li Wenliang. Todos nós precisamos celebrar o trabalho que ele fez.”
Seu trabalho ganha notoriedade entre os chineses que conseguem enxergar sua competência profissional ao diagnosticar antes de todos o perigo iminente. E sua coragem ganha a mídia que em seu pequeno segmento independente questiona o absurdo “cala-boca” que os camaradas impuseram ao médico, na tentativa de evitar que o surto fosse conhecido dentro e fora do país, como acontece hoje. O grande medo, parece, é que a notícia levasse prejuízos econômicos ao país, o que de fato está acontecendo. Por conta do virus, e não da mídia.
Esse estilo comunista de governar deve ser lembrado por aqueles brasileiros que de vez em quando manifestam seu desejo de um retorno à ditadura, certamente porque não conhecem a que preço elas funcionam.
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