Que a chuva é um problema em Franca, todos já sabem. A questão é que todos já sabem há muito tempo.. Em estudo realizado pelas históricas páginas do Comércio, desde que Franca passou a crescer mais intensamente na região das marginais, na década de 80, diversos casos de transbordamento dos córregos e alagamentos foram registrados e, ao longo dos anos, foram ficando ainda mais graves.
Ainda em janeiro de 1985, no dia 29, o então prefeito Sidnei Rocha precisou decretar Situação de Emergência Pública, já que uma adutora que levava água para os francanos foi destruída pelas frequentes chuvas. O resultado disso para a cidade foi uma semana sem fornecimento de água.
Com um maior povoamento nas marginais, o ano de 1997 também chamou bastante atenção por conta dos danos provocados pelas tempestades. Três dias após o ano novo, um trecho do córrego dos Bagres, na avenida Antônio Barbosa Filho desmoronou. O prefeito Gilmar Dominici, na época, constatou que se tratava de um serviço mal-feito. O local se tornou uma área de risco para população.
Apesar dos problemas anteriores, é desde 1999, antes da virada do milênio, que diversos casos de alagamento, buracos e acidentes passaram a ser registrados com ainda mais frequência. Naquele ano, o prefeito era Gilmar Dominici. Desde então, outros três prefeitos foram eleitos, mas o problema nunca conseguiu ser resolvido.
Em 1999, por exemplo, no dia 11 de dezembro, o chamado “Drama das Águas” estampou a capa do Comércio. Na ocasião, uma forte chuva transbordou o córrego do Cubatão e mais cinco residências ficaram inundadas. Além disso, dois acidentes na Cândido Portinari aconteceram. O caso surpreendeu os francanos, que não viam algo parecido desde 1997.
Quase dois meses depois, um dos grandes problemas do início da década apareceu: as voçorocas, causando estragos em diversos bairros. O primeiro surgiu por conta de uma chuva no dia 8 de fevereiro de 2000, quando uma casa no residencial Moreira Júnior acabou desabando. Com isso, um buraco surgiu e, ao longo do mês, 13 famílias ficaram desabrigadas. Além desse local, outros bairros também sofreram com o surgimento dessas voçorocas e se tornaram áreas de risco. Um exemplo é o Jardim Dermínio, que em fevereiro de 2002 também viu surgir uma cratera. Onze meses depois, em janeiro, 30 casas foram embargadas e quatro famílias tiveram que sair de suas residências.
Neste mesmo mês de 2003, segundo o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), Franca teve apenas cinco dias sem chuvas. Em imagem registrada pelo Comércio da Franca e que estampou a matéria sobre esse mês chuvoso, a legenda representou bem o sofrimento dos francanos com o período. “Capas, guarda-chuvas e corridas em busca de abrigo, para se proteger da água, já se tornaram companheiros diários dos francanos.”
Os anos 2000
Passando para década atual, no início de 2012, por conta de uma forte chuva na tarde do dia 18 de janeiro, três casas dos bairros Santa Adélia, Parque Dom Pedro e Vila Gosuen foram invadidas pela água e os muros foram derrubados.
Os problemas com casas e voçorocas, no entanto, diminuíram, mas, apesar de obras em determinadas partes, as regiões das marginais continuaram sofrendo com inundações. O antigo Fórum, por exemplo, na avenida Alonso y Alonso, sofreu frequentemente problemas com a chuva, tendo que suspender os serviços nas ocasiões. Em março de 2013, com forte chuva no dia 3, todo o térreo do prédio ficou inundado e diversos processos ficaram molhados.
Durante os anos seguintes, a região das marginais continuou sofrendo e, de forma ininterrupta, os moradores e estudantes da UniFacef, tiveram problemas por conta dos alagamentos. Como no dia 10 de dezembro de 2014, quando uma chuva de 30 minutos fez o Cubatão transbordar, atingindo carros e alagando toda a via próxima a região do “Dona Quita”. Na ocasião, a região do Galo Branco também teve pontos de alagamento.
Em 2015, foi a vez da avenida Antônio Barbosa Filho ter grandes problemas. No início da tarde do dia 23 de abril, uma forte tempestade proporcionou imagens assustadoras. Uma das mais impressionantes é numa travessia da avenida que é tomada pela força da água. Em outras é possível notar carros arrastados e a via toda alagada.
Os mesmos problemas continuaram, de 2015 a 2018. Mas foi no ano passado, num fatídico dia 20 de fevereiro, que uma das chuvas mais assustadores dos últimos tempos atingiu Franca. Na época, segundo o Corpo de Bombeiros, cinco pontos de alagamento foram registrados. A avenida Alonso y Alonso alagou em diversos locais, parecendo um rio, com carros sendo levados e superados pela altura da água. Já na creche Osiep, na Vila Isabel, a água inundou a escola e, por conta da pressão, parte do muro de concreto não aguentou e acabou desabando. Com isso, dois carros foram atingidos e destruídos pelo muro. Ninguém se feriu. Foi na rua Alfredo Lopes Pinto, na Vila Santa Maria, que o maior dos estragos foi causado. A jovem Joice dos Santos Santana, de 25 anos, seguia pela via, quando foi surpreendida pela enxurrada e, ao tentar segurar sua moto, foi arrastada e ficou presa em um carro.
Após ficar três dias na CTI (Centro de Terapia Intensiva), a mulher teve uma parada cardiorrespiratória, acabou não resistindo, e morreu no dia 24. Desde então, os problemas estruturais foram resolvidos, mas o sentimento de perda dos familiares e da namorada que a acompanhava, não serão esquecidos facilmente.
Em 2020 o cenário não é melhor. Até o fechamento desta matéria, dos 24 dias do mês de janeiro, em apenas quatro não houve chuvas na cidade. Nos demais dias, fortes tempestades atingiram Franca e em quatro delas, as regiões das marginais ficaram alagadas. No dia 13, por exemplo, duas passarelas das avenidas Antônio Barbosa Filho e Hélio Palermo foram levadas. Nesta última, parte da estrutura da barragem do córrego dos Bagres foi levada.
Diante de todos esses problemas, fica a pergunta: será que, algum dia, Franca estará livre dos alagamentos?