Ao anunciar a vontade de recriar o Ministério de Segurança Pública elidindo o Ministério da Justiça, Bolsonaro pretendeu tirar os holofotes de Sérgio Moro. não conseguiu.
Mal o juiz Sérgio Moro assumiu o Ministério da Justiça e Segurança Pública, em fevereiro de 2019, precisou enfrentar uma situação constrangedora. Foi obrigado a desconvidar a pesquisadora Ilana Szabò, cientista política, especialista em segurança pública, diretora do instituto Igarapé, cotada para a assumir o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária. Motivo: Szabò havia se manifestado dias antes, publicamente, contra pautas do bolsonarismo, como a flexibilização da posse e do porte de armas.
Meses depois veio o caso Coaf, órgão de inteligência financeira que identificava movimentações atípicas, acionava investigações e trazia à baila nomes e cifras que foram muitas vezes essenciais na Lava Jato. Sua importância foi reconhecida por todos, inclusive Bolsonaro, até que depois de revelar aos brasileiros quem era um tal de Queiroz, envolvido em esquema de “rachadinhas” com um dos filhos do presidente, o Coaf saiu do âmbito do Ministério da Justiça, virou um tal de UIF, apêndice do Banco Central. Ficou a anos-luz distante de Moro, que reclamava essa perda com seus colaboradores mais diretos.
Há menos de um mês, outra cisão. Após ter acertado com o Senado que Bolsonaro vetaria o juiz de garantias – uma nova figura que se esboçava contrária ao seu pensamento –, o ministro Sérgio Moro ficou a ver navios, pois o veto não veio e Bolsonaro fingiu-se de estátua. Na esteira dessa deselegância com cara de traição, entrou o ministro do Supremo, Luiz Fux, que atropelou seu colega Dias Toffoli e jogou para tempo indeterminado a discussão do assunto.
Colado a esse episódio, antes de voar para a Índia, no início da semana que findou, o presidente falou à imprensa sobre sua intenção de atender aos secretários de Segurança dos Estados, com quem se reunira no dia anterior, e recriar o Ministério da Segurança Pública. Isso significaria separar Justiça e Segurança, golpe mortal no esforço de Moro em reuni-los ao aceitar o cargo de ministro. Desmembrá-los significaria retirar a Polícia Federal do âmbito de sua atuação.
Desconvidar Szabó foi constrangedor para Sérgio Moro; perder o Coaf, frustrante demais; ter sido feito de bobo no episódio do juiz de garantias, um escárnio; mas levar a Polícia Federal para outra pasta, tornou-se evidente sinal de fritura. Como se sabe, a Polícia Federal tem sido área da pasta de Moro que vem lhe conferindo visibilidade cada vez mais positiva por conta de bons índices no recuo (embora lento) da criminalidade. Aparentemente foi isso que fez crescer o medo de Jair Bolsonaro, que não está vendo com bons olhos as pesquisas que colocam Sérgio Moro, provável candidato à Presidência, acima do seu nome no quesito “credibilidade”. É um índice que assusta o candidato à reeleição. Mas o susto com a enorme rejeição à sua proposta de podar Segurança da Justiça deve ter sido maior. Ele se desdisse horas depois, já na Índia, e tudo voltou a ser como antes, no quartel de Abrantes. Pelo menos até seu retorno, pois a fala final deste episódio foi: “Em política, tudo pode mudar”.
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