08 de julho de 2026

Sharon Needles


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Disseram que acabara de ser atropelado. Também pode ser paulada! - disse um outro. Ninguém queria ver, tampouco acudir. Eu no caixa com a compra do almoço não pude me conter ao imaginar que outro carro pudesse passar por cima dele.

Lembrei do Sharon Nedles, o gatinho da minha crush que eu cuidei por um dia e por descaso veterinário agonizou nas minhas mãos e partiu. Ele era o filhotinho mais lindo da ninhada e parecia ter nascido maquiado, daí o nome de drag queen.

É sofrido demais ver um ser partir... A falta de respiro, a pupila que dilata e denuncia que ali já não tem vida, o corpo que congela em segundos, a rigidez cadavérica... A solidão que é morrer.

Tentei de todas as formas salvar o Sharon. Soprei o focinho, fiz respiração boca a boca... E daí que era um bichinho?! Era uma vida, que não deu tempo de salvar... Assim como não deu com o gatinho de ontem.

Esses fatos reforçam em mim o propósito de cuidar, valorizar quem eu amo e está vivo. Também dá um medo danado de perder meus filhos ( Mary, Bóris, Snow). São dois cães e uma gatinha com heterocromia azul e âmbar. É minha familinha junto com a vó deles: minha mãe.

Fico pensando como é difícil lidar com a morte porque não pensamos nela todos os dias: temos a dádiva do esquecimento, mas quando vi o gatinho agonizando lembrei que um dia terei que entregar meus maiores tesouros: me revolto, e lembro que preciso trabalhar a aceitação. Eu não tenho sete vidas...Nem os gatinhos têm, né?!

Tirei o corpinho do meio fio, botei numa caixinha, sujei um pouco as mãos com sangue e lavei depois, em prece. Toda vida deveria ser reverenciada.

E a morte, nós deveríamos lembrar dela com mais frequência pois é só quando deslumbramos a finitude que damos o devido valor ao presente que é a Vida.