Então chegou o dia em que fui conhecer a feira de antiguidades da Praça Benedito Calixto, em São Paulo, point turístico de São Paulo. Pela fama que tem, achei que fosse maior que a da Praça da República. E tão preciosa como a da portenha San Telmo. Tinha me iludido. E aí compreendi porque os que a conheciam a ela se referiam no diminutivo.
O público caminhava pela feirinha atento a todos os detalhes, pois qualquer distração poderia deixar passar uma descoberta espetacular. Relógio herdado por parente de Santos Dumont. Jogo de chá que havia pertencido a uma prima da prima da prima da marquesa de Santos. Defumadores indianos usados por dez gerações. Salva de prata que pousara sobre o étager de um barão do café. Toalhas de algodão egípcio com desenhos geométricos. E muitas coisas mais, inclusive uma bolsa Louis Vuitton, que a comerciante garantia ser legítima. Só que não: onde estava a marca d’água da grife?
Depois de algumas voltas, cansei. E fui me sentar num banco, debaixo de uma árvore, à espera dos amigos que continuavam sua caça ao tesouro. Posta em sossego, observava as gentes, quando ouvi um “com licença; posso?” Era uma mulher magrinha e loira, já nessa fase que garante vaga no estacionamento e lugar preferencial nas filas. Com a cabeça assenti e ela, mal se ajeitou, começou a se queixar do joelho. Falei que também sofria de artrite e isso foi o sésamo que abriu a porta para que me contasse sua vida em uma hora. Durante todo esse tempo me pareceu que ela segurava uma placa onde estava escrito “ouça-me” e eu outra com os dizeres “eu te escuto.”
Disse que já não apreciava mais as feiras, mas tinha ido com o marido que queria comprar vinis, era colecionador e havia sido roqueiro. Emendou informando faceira que ele era vinte anos mais novo. No passado, ela bem que tinha avisado sobre os perigos dessa diferença, mas ele não havia ligado, então agora tinha de aguentar- suas dores, seu envelhecimento, pontuou. Voltava a se queixar da perna e outras partes do corpo, frisando que caíra na cozinha de sua antiga casa, vendida para saldar dívidas, e agora morava num apartamento pequeno, ali pertinho. Gostava do lugar, disse que “era por Deus” que tudo se encaminhara daquele jeito, pois como poderia ficar subindo e descendo escadas com as atuais deficiências? Continuou falando da sua juventude nos anos 60, de lojas, de viagens, de acidente de Uber (e mostrou a cicatriz no braço), das filhas que não a visitavam, da ingratidão dos genros, da diarista espevitada, dos netos universitários. Foi quando o meu neto menino apareceu. E em seguida o tal marido, ruivo e sarado. Ele a beijou, ofereceu o braço, ela se apoiou e com a mão direita se despediu de mim e de João, que jamais saberemos seu nome.
Naquele momento pensei em meu amigo escritor que quando viaja compra dois lugares no ônibus: um para si e outro para ninguém, porque prefere não ouvir conversas alheias. Ele não sabe o que está perdendo em termos de experiência com a diversidade humana.