05 de abril de 2026

Sertão


| Tempo de leitura: 2 min

Lembro-me bem qual foi o primeiro contato que tive com o sol do sertão. A van estacionou para alguém fazer xixi em um posto que dava calafrio, tamanho desconsolo. Pensei ouvir ventiladores enferrujados moendo calor e o brotar do suor. Pensei ter visto pernas gordas embaixo de um vestido fino de algodão que, à custa do repouso, sacrificavam um velho banquinho de criança. O som dos carros passando, por uma rodovia que ainda guarda bons intervalos, era uma trilha sonora adequada. Ali era Icó, a primeira cidade que paramos depois de sairmos da região do Cariri. Eu tinha ainda em mente o gosto do Serigado e dos croquetes úmidos de bacalhau da ceia de Natal em Juazeiro do Norte, e me preparava para encarar tão e somente alguma coisa ressequida de sol, porque de outra forma não poderia ser...

Serigado é um peixe de água salgada que tem outros nomes, mas, para nós aqui, o mais conhecido é a garoupa. Ele é também conhecido por Serigado-branco, Serigado-garoupa, Serigado-preto, Serigado-badejo, Serigado-Vermelho, Serigado-Tapuã – brasilidades que levam à boca praticamente o mesmo peixe, tenro, em posta, a carne clara, pouca gordura. No Nordeste, a preferência é por afogá-lo no molho vermelho, cebolas inteiras de cabeças pequenas com as pétalas transparentes. E claro, pirão, sempre. Às vezes fazem-no com as crostas de castanhas, que já vão dando um certo ar retrô.

O peixe estava bom, mas os croquetes, excelentes. Fiquei a pensar em croquetes e bolinhos e procurei saber se haveria uma diferença exata entre eles. A gente sente a diferença, mas nos dias atuais, com a quebra de tantas barreiras, fica difícil dizer - nem o Houaiss ajudou: para ele, croquete é um tipo de bolinho. Gosto da tentativa de dizer que bolinhos têm massa e recheio, enquanto os croquetes são um todo. Qualquer que seja a proteína estará misturada ao carboidrato ou ao ingrediente que lhe dará sustentação. Popularmente, a diferença está na forma: se for alongada, nós chamaremos de croquete, cuja palavra vem do alemão, foi inventado na Holanda e é sucesso no mundo inteiro. E são um clássico do restaurante Sirigado do Pedro, em Juazeiro do Norte.

Por sorte, levamos conosco banana, bolacha e água, porque no caminho encontramos fubalito e rapadura - nada contra, mas o dia estava só começando.