O monitoramento do desmatamento na Amazônia esteve no centro de uma das principais crises do governo de Jair Bolsonaro em 2019. O estopim foi a divulgação de dados de satélites do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) que demonstravam desmatamento de mais de mil quilômetros quadrados de floresta — 68% a mais do que em julho anterior.
Na ocasião também foi revelado que tinha havido um crescimento vertiginoso no número de queimadas em agosto: 30.901 focos no mês, aumento de 196,5% em relação a agosto de 2018.
As informações e imagens sobre a devastação da floresta amazônica correram o mundo e provocaram uma crise internacional sobre a política ambiental adotada pelo governo, colocando na berlinda fontes de financiamento para projetos de conservação e a aprovação do acordo entre Mercosul e União Europeia.
Em resposta, o presidente da República, que desde a campanha eleitoral assumira um posicionamento antiambientalista, disse, sem apresentar provas, que os dados do Inpe eram “mentirosos” e que o presidente do instituto, o cientista Ricardo Galvão, estaria “a serviço de alguma ONG”. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, chegou a convocar uma entrevista no Palácio do Planalto para apontar falhas no trabalho do Inpe e disse que os números “não refletiam a realidade”.
Escandalizado com as declarações, Galvão protestou e acabou exonerado. Saiu dizendo que sabia que a manifestação de sua perplexidade com o governo lhe custaria o cargo, mas sentia que “era necessário colocar um marco bem claro de resistência”, porque não aceitava a ideia de que um cenário obscurantista estivesse retornando ao país.
O governo mudou o tom e tomou medidas como colocar o Exército para combater o problema. Em outubro passado a Amazônia registrou um número mais baixo de queimadas para o mês desde o início da série histórica iniciada em 1998. Mas no acumulado de 2019, no entanto, a quantidade de focos de incêndio ainda é superior a 2018, com 74.605 ocorrências notificadas entre janeiro e outubro, ou 29,4% a mais do que o mesmo período do ano anterior.
Isso preocupa muito, disse Ricardo Galvão , formado em engenharia de telecomunicações pela Universidade Federal Fluminense, com mestrado em engenharia elétrica pela Universidade de Campinas e doutor em física de plasmas aplicada pelo Massachusetts Institute of Technology ,além de listado pela prestigiosa revista Nature como um dos dez mais importantes cientistas de 2019. Desde que deixou o cargo de diretor do Inpe, reassumiu sua cadeira de professor no Instituto de Física da Universidade de São Paulo e na última quarta-feira, foi entrevistado pela Central Globo News. Foi quando voltou a dizer que o assunto precisa retornar à órbita das preocupações do governo, que nada disse sobre o tema nos últimos meses. Para Galvão, como para todos que defendem a floresta, “falta um plano de desenvolvimento sustentável para o bioma.” Nem precisava dizer.
Medidas paliativas são apenas analgésico para uma ferida que só cresce.
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