Embora eu tenha passado minhas férias no que se pode chamar de deserto, rodeada por quase tudo que o defina, chego na minha cidade e me contam que por aqui não foi muito diferente. Por sorte aprendi a diferenciar o que é o calor da cidade do que é o calor do deserto, ou melhor, do semiárido. Mas interrompo essa conversa aqui, preciso de tempo para depuração. Melhor ficar com a descomplicada chuva que me recebeu na manhã de início da rotina do meu ano.
Por isso, coloquei todos os vasos de plantas para receberem nas suas peles o frescor e me desculpei por fazê-las prisioneiras do calor da nossa cidade, testando-as como se mandacarus ou xique-xiques fossem. E as observo de forma diferente, e se antes eu não ousava conversar com elas, como já vi tantas pessoas fazendo, agora arrisco uns monossílabos.
Minha mudança de atitude está no livro Revolução das Plantas, de Stefano Mancuso, que li nas férias e muito me impressionou. Parece que nossa arrogância deixa escapar o fato de que nós humanos respiramos por conta das plantas, e que elas alimentam todos os animais da Terra. Muitos não sabem que todas as fontes de energia não renováveis – gás, petróleo, carvão – são também formas de energia solar fixada pelas plantas há milhões de anos. Ou seja, nossa existência depende integralmente do que é verde.
Mas o grande valor do livro é nos apresentar um verde que pensa, que vê, que sente, cientificamente. E colocar em xeque a posição confortável de comandantes que pensamos exercer. Afinal, nós escolhemos o trigo ou fomos escolhidos por ele, por exemplo? Pode ser o homem um recurso utilizado pelas plantas?
Entre 12 ou 15 mil anos atrás, o homem descobriu a agricultura na Crescente Fértil, local hoje devastado por guerras religiosas. A civilização surgiu a partir disso e nossa história de coevolução com as plantas também começou aí. Nós somos o vetor mais impressionante que uma planta pode ter. Hoje, cerca de 60% da nossa energia advém do trigo, do milho e do arroz. É o sonho de qualquer vegetal cair nas nossas graças e ter sua existência garantida. Mas o que impressiona é o embuste que uma espécie pode fazer. Por exemplo, há 15 mil anos o homem cultivava lentilhas - é bíblica a sua utilização. Mas a ervilhaca não, era considerada uma erva daninha que aparecia nos campos de lentilha. Gerações após gerações a ervilhaca foi se modificando, até não ser mais distinguível e o homem a aceitasse como se lentilha fosse. Atitudes como essas, e tantas outras, merecem uma reavaliação sobre a complexidade das plantas.
E se hoje recebemos o ano novo com lentilhas ou ervilhaca, pouco importa.
Mais sorte teremos se deixarmos de cultivar velhas certezas para colhermos ideias novinhas em folha.